Técnica permite readequação vocal para pessoas trans; entenda o procedimento


A voz é considerada uma das características mais peculiares de cada indivíduo.

E para pessoas trans, que se identificam com gênero oposto ao que nasceram, a mudança na tonalidade vocal pode ser essencial como parte do processo de redesignação sexual.

Assim como os procedimentos de alinhamento facial, que buscam deixar o formato do rosto com feições mais femininas ou masculinas, também existem tratamentos para o ajuste da voz.

O médico otorrinolaringologista Guilherme Catani explica que esse tipo de adequação está entre os fatores que influenciam a qualidade de vida de pessoas trans. Por ser um fator marcante, a não conformidade vocal com o gênero pode gerar sentimentos de inadequação.

“O que mais vejo de diferença na vida delas após o procedimento é o quão autênticas elas se tornam, afinal, a voz se encaixa com a personalidade da pessoa e forma uma identidade única”, diz o médico.

“Além da autenticidade, também vejo o quanto ter a voz harmônica com quem você é te dá mais autoconfiança para as mais diversas situações. Tira toda a vergonha, a insegurança e até o medo de coisas simples, como falar ao telefone”, afirma Catani, autor do livro “Guia de readequação vocal para pessoas trans”, da Editora Appris.

O especialista, que atua na Transgender Center Brazil, clínica especializada no atendimento a pacientes trans, em Blumenau (SC), explica que os tratamentos incluem cirurgias no esqueleto laríngeo, conhecido como a “caixa da voz”, e nas cordas vocais.

Alinhadas às terapias hormonais e de fonoaudiologia, as técnicas contribuem para que pacientes se identifiquem com a própria voz.

“O procedimento leva no máximo duas horas e após é necessário um repouso vocal por duas semanas. O paciente precisará ainda de terapia com fonoaudiólogo depois da cirurgia e a recuperação final leva cerca de três meses”, detalha.

Qualidade de vida

A estudante de direito da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Laura Madel da Silva, 23, começou a transição de gênero entre o final de 2021 e o início deste ano.

Ela conta à CNN que a voz masculina era uma das principais causas da disforia de gênero, condição que envolve um sentimento intenso e persistente de inconformidade com os características sexuais do gênero de nascimento.

“Um dos meus primeiros passos foi tomar hormônio, fazer a hormonioterapia. A partir daí, vendo como me sentia, decidi fazer a cirurgia vocal. Foi algo bem inicial por conta das disforias que eu tinha. A maior delas era a da minha voz, desde sempre”.

A estudante Laura Madel realizou cirurgia de readequação vocal em março / Acervo pessoal

Laura afirma que a compreensão sobre os impactos que a disforia de gênero causava sobre o seu estado emocional foi sendo construída ao longo do tempo.

“Entendia que era uma coisa que me incomodava, que não conseguia pontuar de onde vinha, mas era como uma poeira embaixo do tapete, que me fazia falar menos, mais baixo ou até mais rápido. Era algo que me reprimia de uma forma geral”, explica.

Na tentativa de corrigir o problema, ela buscou atendimento com fonoaudiólogos e descobriu a possibilidade de intervenção cirúrgica. O procedimento foi realizado em março e segundo ela, “não teve dor”. “Foi um alívio pra mim”, conta.

Essa mudança da voz me deixou mais confortável para falar à vontade. Partindo de um contexto em que eu fugia de qualquer situação que precisasse falar, como uma ligação telefônica ou um seminário, poder falar novamente foi um ato libertador para mim.

Laura Madel, estudante

Como funciona a tireoplastia

A tireoplastia é um procedimento cirúrgico nas estruturas das cartilagens da laringe, que permite modular a voz de pacientes que apresentam diferentes tipos de distúrbios vocais.

O médico Gustavo Philippi de Los Santos, cirurgião de cabeça e pescoço, explica que as tireoplastias são divididas em quatro tipos, de acordo com a indicação e o problema de cada paciente.

O procedimento do tipo 1 é destinado a medializar a prega vocal, sendo indicado para pacientes com paralisia nessa região ou com a ausência da prega vocal devido a tratamento cirúrgico anterior. Já o tipo 2,busca lateralizar a prega vocal em pacientes com disfonia espasmódica, um distúrbio associado a espasmos que atrapalham a produção da voz.

A tireoplastia do tipo 3 induz ao relaxamento na frequência da voz para torná-la mais grave, a partir da retirada de um segmento da cartilagem laríngea, deixando as pregas vocais menos tensas. No caminho oposto, o tipo 4 estica as pregas vocais e torna a voz mais aguda por meio de pontos.

O médico explica que os procedimentos são realizados através de uma pequena incisão no pescoço. As cirurgias dos tipos 3 e 4 são feitas com anestesia local, com leve sedação, porém com o paciente acordado.

“Na cirurgia, aumentamos a tensão das pregas vocais mudando o tom da voz para mais agudo. O procedimento é único e o paciente recebe alta no mesmo dia do hospital”, diz Santos.

O procedimento dura em torno de uma hora. Durante a cirurgia, as alterações são realizadas de maneira gradual permitindo que o paciente ouça e perceba qual será o resultado.

O custo da cirurgia varia de acordo com cada tipo e dificuldade do caso, em torno de R$ 10 a 15 mil.

Este conteúdo foi originalmente publicado em Técnica permite readequação vocal para pessoas trans; entenda o procedimento no site CNN Brasil.


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