Dia dos Pais: conheça chefs renomados que atuam junto dos filhos na cozinha


Ser um grande cozinheiro pode não ser um dom geneticamente herdado, contudo, ter como pai um chef talentoso, ajuda. E como ajuda! Assim como ser filho de um grande maître ou de um restaurateur acaba por desenvolver gosto – e jeitinho – por gente e por comida.

Em homenagem ao Dia dos Pais, o CNN Viagem & Gastronomia conversou com pais e filhos que compartilham o sacerdócio gastronômico. São chefs renomados que dividem a paixão pelas panelas com as gerações mais jovens, que acabam por pegar gosto pelo negócio.

Tsuyoshi e Jun Murakami, do Restaurante Murakami

Tsuyoshi e Jun Murakami: pai e filho dividem o balcão do sofisticado Murakami, nos Jardins / Ricardo D’Angelo

Tsuyoshi, 54, e Jun Murakami, 20, dividem um dos balcões mais sofisticados de São Paulo, o do Restaurante Murakami, instalado desde fins de 2019 nos Jardins.

“Com 7 anos, pegava o arroz e montava um oniguiri abstrato. Colocava na brasa com shoyu e esperava até que ficasse dourado, enrolava em meia folha de nori e servia. Virou minha receita para os churrascos da família. Dali para entrar profissionalmente na cozinha foi um movimento orgânico, principalmente porque meu pai é a minha maior inspiração. Como artista, nunca conheci alguém igual”, conta Jun.

Honrado com a declaração, o pai confessa: “Tenho orgulho total. Ele tem um lado empreendedor que eu não tenho, tem uma sensibilidade para a cozinha, para a coquetelaria também. É meu braço direito para os eventos. Ele tem visão: fica com o pé no chão e me deixa voando”.

Jefferson e João Pedro Rueda, d’A Casa do Porco

Jefferson e João: filho mais velho do casal Rueda tem aprendido o ofício do pai dentro da cozinha d’A Casa do Porco / Thais Mello

Pouca gente sabe, mas Jefferson Rueda, 45, e o filho mais velho, João Pedro, 16, têm passado boa parte do tempo juntos. Sabe onde? Na cozinha d’A Casa do Porco, ou do 7º melhor restaurante do mundo.

“Comecei a trabalhar n’A Casa do Porco recentemente. Gosto muito de entender e acompanhar o trabalho do meu pai”, diz o jovem. ”

Além de ficar pelo menos três vezes por semana dentro da cozinha do restaurante, também cozinho muito com ele quando vamos para o Sítio Rueda. Lá, além de me ensinar técnicas, ele me leva pra pescar e limpar os peixes do Rio Pardo, para ver as galinhas… Gosto de assistir o passo a passo na preparação dos pratos. Sempre aprendo muito com ele”, explica João.

Jeffinho nem tenta disfarçar o brio: “Para um pai é muito gratificante ver um filho nascer, crescer e agora saber que ele pode acompanhar o dia a dia do restaurante, trabalhando e entendendo a minha profissão. É uma felicidade muito grande. Os funcionários até brincam e falam que ele se parece muito comigo, no jeito, na organização e na maneira de trabalhar”.

Vo Van Phuoc e Norman Vo, do Miss Saigon

Norman Vo e Vo Van Phuoc: restaurante vietnamita Miss Saigon, tocado pela dupla, inaugurará segunda unidade na capital / Ricardo D’Angelo

Foi graças ao incentivo do filho, Norman Vo, 28, que o chef Vo Van Phuoc, 64, abriu um dos primeiros restaurantes de cozinha vietnamita de São Paulo.

“Desde pequeno, ele levava os amigos em casa e eles adoravam comer lá, falavam que a gente devia ter um restaurante. Como ele foi cada vez mais se interessando pela cozinha, insistiu que era esse o caminho”, conta Van Phuoc. Assim, em 2013, o Miss Saigon despontou em Moema.

“Embora eu sempre tenha ajudado, nunca tinha dividido a cozinha com meu pai. Na pandemia, eu estava em um restaurante na Austrália, e ele sozinho por segurança, com os pedidos de delivery só aumentavam. Voltei e fui para o fogão, depois fui atrás de um lugar maior para dar vazão às entregas e hoje fico mais tempo cuidando do salão e do administrativo”, conta Norman que, não apenas migrou o Miss Saigon para Pinheiros, como está prestes a inaugurar sua segunda unidade na Vila Nova Conceição.

Juscelino e Dudu Pereira, do Piselli e do Zena

Juscelino e Dudu Pereira: filho foi ambientado no Piselli desde cedo, tanto que criou seu próprio negócio na pandemia / Divulgação

“Quando abri o Piselli, em 2004, o Dudu estudava no Dante Alighieri. Eu falei pra ele: você vai sair do colégio e vai me ajudar. Ele tinha seus 14 anos e eu forcei um pouco. Ele começou no caixa. Depois de uns dois anos quis ir para a cozinha. E foi. Aprendeu a cortar cebola, se divertia com a galera. Ficou um tempão”, conta Juscelino Pereira, 53, que, de gerente antológico do Gero, alçava voo solo 18 anos atrás.

“Quando projetei o Zena, ele já tinha 18. Exigi muito dele e depois de uns três anos saí propositalmente de lá para deixá-lo cuidando do próprio negócio. Ele decolou, passou pela pandemia e abriu o Il Covo sozinho. Continuamos juntos, trocando ideias, fazendo cross entre os negócios. Não poderia me sentir mais orgulhoso”, complementa.

Motivo do orgulho, Dudu, 31, garante que desde pequeno o pai lhe apresentava todas as partes de um restaurante: “Onde ele fosse me levava, até em viagens. Naturalmente, me colocou para trabalhar no Piselli. Foi muito gostoso e foi consolidando meu apego pela coisa. É um grande amigo e minha maior referência. Hoje importamos vinhos juntos, negociamos fornecedores e trocamos figurinhas sobre clientes. Tudo com muito amor e carinho”.

Tadeu e Bella Masano, do Amadeus

Tadeu e Bella Masano: desde pequena a filha era companheira nas aventuras gastronômicas do pai / Divulgação

Há mais de 30 anos, Tadeu Masano, 68, e a esposa Ana abriram o Amadeus, o restaurante mais premiado em frutos do mar da pauliceia. Bella, 41, e a irmã cresceram ali dentro, sendo que a primogênita criou um gosto especial pelo negócio da família.

“Foi meu pai que plantou em mim o prazer de comer e de cozinhar, que me ensinou ser a mesa o centro da casa. Criamos e continuamos a criar pratos juntos, muitos desses improvisos que acabam no Amadeus. Um exemplo é a Banana da Fazenda de Engenheiro Schimidt, uma banana preparada ao forno com calda de tamarindo, licor de café e sorvete de chocolate”, explica a chef.

Seu pai, que ainda assume o fogão nos almoços com a família e os amigos, confessa: “Desde cedo ela foi minha companheira nas aventuras gastronômicas. Aos 5 anos, Bella pediu de Natal um azeite, aos 7 fizemos nossa primeira receita juntos, uma manga flambada. Ela brinca que o restaurante foi seu grande parque de diversões. Hoje vejo que já é dos seus filhos!”.

Angelo, Laisa e Rafael Lorenti, da Basilicata

Rafael, Angelo e Laisa: junto do pai, filhos estão por trás do dia a dia das lojas do grupo familiar / Divulgação

Em 1914, a família Ponzio abria a Basilicata, no Bixiga, em homenagem à sua região natal, no sul da Itália. Parentes das famílias Laurenti e Lorenti acabaram entrando na sociedade – e nunca mais saíram.

Tanto assim que Angelo, 60, da quarta geração dos Lorenti, propôs aos outros sócios abrir uma trattoria com receitas dos clãs feitas pelo filho, Rafael, 33.

“Ele sempre gostou de gastronomia, desde o colégio fazia eventos e cursos. Às vezes não assistia aula por isso, o que me deixava preocupado. No fim, entrou na faculdade, foi pra Itália e hoje me orgulho da sua competência”.

Foi assim que surgiu a cantina no andar de cima da centenária padoca e, em seguida, a Basilicata Cucina, em Pinheiros.

“Começamos a escolher e comprar juntos equipamentos para o restaurante. Em 2017, quando inaugurou, nos aproximamos ainda mais. Embora ele não seja cozinheiro, meu pai sempre foi a referência de dedicação ao trabalho. Hoje é engraçado, ele me manda pegar mais leve, mas ele não pega!”.

Não bastasse o filho, Angelo conta também com a filha, Laisa, 35 anos, no batente.

“Em 2017 ela assumiu o meu lugar e implantou novos sistemas de administração e produção nas lojas [Padaria 13 de Maio, Basilicata e Basilicata Cucina]. Ela é muito trabalhadora. Às vezes leva problema pra casa, mas a gente tenta evitar”.

Sem discordar, ela confessa: “Adoro quando escuto os funcionários que estão nas casas há anos dizerem ‘trabalhar com a Laisa é igual trabalhar com Seu Angelo’”.

Renato e Leonardo Carioni, do Così

Renato e Léo Carioni: filho foi estagiário na casa da Haddock Lobo e hoje aperfeiçoa conhecimentos na Itália / Divulgação

“Em casa, a cozinha sempre foi um lugar muito animado, cheio de brincadeiras como flambar coisas somente pela bagunça ou sair correndo atrás dos meninos com um frango inteiro na mão. Hoje, eles cresceram, mas me lembro da época em que fazia as papinhas tentando variar o máximo possível para ir treinando o paladar deles”, conta Renato Carioni, 46, chef e proprietário do Così.

“Agora, quando Léo cozinha, vejo bastante da minha influência, mas também percebo o estilo dele se criando”, admite o pai.

Para o filho do meio, Léo, 21, que foi estagiário da casa concorrida na Haddock Lobo e hoje se aperfeiçoa na Itália, “a cozinha é o lugar onde mais gosto de estar, provavelmente porque desde pequeno acompanho meu pai”.

“Cozinhar com ele é ótimo, porque entendemos rápido o que o outro quer e ele tem a liberdade de me aconselhar, de falar tanto o que gostou quanto o que está errado sem hesitar”.

Claude e Thomas Troisgros, do Quartier Troisgros

Claude respira gastronomia desde que se entende por gente. À parte a restauração, brilha na televisão há mais de uma década. Thomas, bem mais low-profile, além de tocar restaurantes, adora criar marcas, como o T.T. Burger, Três Gordos, Tom Ticken e Marola.

Em São Paulo, mais do que pai e filho, a dupla é sócia no Quartier Troisgros, no Itaim Bibi, que hoje conta com Chez Claude, Boucherie, Bar du Quartier e as obras de um restaurante mediterrâneo que abre até o fim do ano.

“Nasci dentro de um restaurante, as brincadeiras do dia a dia eram na cozinha, onde tinha meu pai, Pierre, e meu tio, Jean, os dois chefs responsáveis pela nova cozinha francesa. Com quatro anos de idade a gente já cortava cebola”, relembra Claude, 66.

Há 43 anos no Rio, admite: “Cresci profissionalmente no Brasil e hoje o meu filho é meu braço direito, além do meu sócio em São Paulo”.

“Nunca fiquei tenso na cozinha do meu pai. Sempre procurei feedback construtivo, sabendo que às vezes acerto, às vezes erro”, comenta seu primogênito, Thomas, 40.

“Temos paladar parecido e estilos diferentes. É uma troca de energia com respeito mútuo muito prazerosa e com crescimento dos dois lados”.

“Ele trabalhou em Nova York com chefs como Jean-Georges e Daniel Boulud e passou muito tempo no 66 Bistrô antes de se tornar meu sub-chef no Olympe. Ver o filho não só crescer mas definir seu caráter gastronômico dentro de uma profissão é um orgulho extraordinário”, confessa o M. Marravilha.

“Hoje em dia a gente se conhece muito bem como pai e filho e como cozinheiros. Isso gera uma gastronomia muito verdadeira”, acredita.


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