Elenco de série sobre feminicídio faz acompanhamento psicológico durante gravações


São dez episódios nada fáceis de assistir. Em forma de antologia, “Não Foi Minha Culpa” narra situações de violência física, verbal e sexual contra mulheres brasileiras. Cada episódio traz uma história diferente, com personagens, motivações e finais que, assim como na vida real, não são nada animadores. Um único elo une essas histórias: o Carnaval brasileiro, mais precisamente um bloquinho de rua.

“A série se trata de um projeto internacional, com versões colombianas e mexicanas, então precisávamos de algo que representasse o Brasil”, diz Juliana Rosenthal, roteirista da produção. “O Carnaval, é um evento democrático, assim como a violência contra a mulher”.

Susanna Lira, diretora da série, concorda. Para ela, é uma festa símbolo da tolerância, mas há muitos crimes e assédios que acontecem nesse mesmo ambiente.

“É interessante trazer um bloco de Carnaval porque diversas classes sociais participam dele”, diz. “Em um determinado episódio, fazemos um passeio com a câmera mostrando desde a vendedora do bloco até a cantora. Todas sofreram violência, nenhuma delas se salva. É algo muito realista e brasileiro.”

As histórias trazidas são baseadas livremente em fatos reais e foram construídas em conjunto. Segundo Juliana, houve muita conversa entre elenco e produção. E as próprias atrizes confirmam isso: Aline Dias conta que construiu sua personagem baseada em histórias que ouviu das colegas.

“Sei que a violência sempre acontece quando a gente está bem vulnerável, em uma situação que você não espera, com pessoas que você não espera”, diz a atriz.

No episódio no qual interpreta a protagonista, Aline vive Ingrid, uma jovem que, nascida no Piauí, se muda para São Paulo ao conseguir trabalho em uma das maiores construtoras do país. Ela acaba sendo vítima de uma violência coletiva dos colegas de trabalho.

“A gente nunca está armada quando isso acontece. Eu tenho certeza que já vivenciei violências do tipo sem saber que estava vivenciado elas.”

Quem trouxe a própria experiência para a personagem que interpretou foi Fernanda Nobre, que faz uma aspirante a atriz presa em um relacionamento abusivo.

“Houve muitos gatilhos pra mim”, diz Fernanda. “Em uma das cenas, fiquei muito emocionada e quando saí pro camarim, comecei a pensar: ‘será que eu já vivi isso? Por que fiquei tão emocionada?’. Depois, entendi que era o medo de viver uma agressão como aquela.”

As maiores vítimas da vida real são as mulheres, mas, segundo a própria diretora da série, foram os homens que precisaram de um maior apoio.

“Fui surpreendida por uma vulnerabilidade dos homens”, diz Susanna, a diretora da série. “As mulheres estavam com vontade de denunciar, de contar as histórias, mas os homens se sentiram intimidados ao reproduzir um comportamento que eles mesmos renegam.”

O ator Daniel Blanco, par de Fernanda Nobre, comentou sobre essa fragilidade. Para ele, qualquer homem está sujeito a ser violento, por mais romântico, carinhoso e apaixonado que ele aparente ser para sua parceira ou para a família dela.

“Lembro de uma cena que me abalou muito e foi a Fernanda, a mais forte da dupla, que me levantou o astral, dizendo ‘bora trabalhar’”, relembra o ator.

Diante de histórias tão pesadas e realistas, o apoio psicológico para a equipe inteira foi fundamental. Roteiristas, diretora e elenco confirmam que o suporte aconteceu dentro e fora do set.

As leituras de roteiro foram feitas de forma on-line, mais tranquilamente, durante a fase mais complicada da pandemia, porém, assim que o elenco começou a realizar as dinâmicas de atuação, a emoção tomou conta de cada filmagem.

“Eu pensei ‘nunca vou precisar dessa terapeuta’ até que, depois de um episódio, marquei uma consulta e ela me disse: ‘Nossa, 20 pessoas marcaram sessão comigo hoje”‘, diz Susanna Lira.

Dramaturgia e violência

“Houve muitos gatilhos pra mim”, diz Fernanda Nobre, que estrela “Não Foi Minha Culpa”, do Star+/ Divulgação

Uma conexão tão forte com o verossímil torna “Não Foi Minha Culpa” uma série que acaba sendo mais um objeto de reflexão do que puramente entretenimento. O roteiro é bem amarrado, as atuações são boas e a fotografia é bela, mas não é uma produção para ver antes de dormir, no intuito de desanuviar a mente. As criadoras e o elenco querem nos botar para pensar.

Em meio à enxurrada de produções de streaming que contam histórias reais de feminicídio de forma documental, “Não Foi Minha Culpa” deve atingir a audiência de uma outra maneira.

“Uma coisa é você ver uma notícia de jornal, a história de uma mulher que você não conhece o nome”, diz Susanna Lira. “Outra coisa é trabalhar com um roteiro como esse, que traz toda a imensidão que a gente perde com a morte de uma mulher.”

Juliana Rosenthal, roteirista, completa o raciocínio, dizendo que o projeto tenta elucidar as perguntas que temos ao ler uma notícia do tipo, por exemplo: “Como essa mulher foi morta? Por quem ela amava? Como isso se deu?”.

Já a atriz Fernanda Nobre acredita no poder da dramaturgia como identificação do próprio espectador.
“O jornalismo tem a função de denúncia, uma função importantíssima de ajudar uma sociedade a se organizar, mas a arte faz com que o indivíduo se organize a partir daquilo, se vendo na tela e pensando sobre a própria situação”.

Elenco e produção esperam que a série sirva como empoderamento feminino e pequenos grandes toques para todos os homens que assistirem “Não Foi Minha Culpa”.

Para Daniel Blanco, muitos amigos e colegas se sentem atacados quando ele expõe uma situação machista a eles, e ele torce para que a série seja um ponto de partida para uma reflexão maior.

“Infelizmente, não acredito que os homens vão se juntar para assistir ‘Não Foi Minha Culpa’ para aprender sobre machismo e como melhorar a relação com as mulheres”, diz ele. “Porém, se algum deles estiver em casa e botar uma série pra assistir, pode se surpreender com atos que ele próprio vai se identificar, sem ninguém do lado apontando o dedo.”

“Não Foi Minha Culpa” estreia nesta quarta-feira (10) no Star+.

Este conteúdo foi originalmente publicado em Elenco de série sobre feminicídio faz acompanhamento psicológico durante gravações no site CNN Brasil.


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