“Crimes do Futuro” marca a volta de David Cronenberg ao terror corporal


De volta ao terror corporal, David Cronenberg traz muita coisa para se pensar, mas pouco para assistir.

Quem estava com saudade de um Cronenberg com mais vísceras? Depois de 20 anos focando sua carreira em dirigir filmes de drama um tanto medíocres como “Cosmópolis” (2012) e “Mapa para as Estrelas” (2014), o cineasta volta às origens em “Crimes do Futuro”: objetos afiados penetrando peles, órgãos expostos e, a especialidade do cineasta, a mutação do ser humano perante à sociedade.

Desta vez, essa transformação vem através da dor e da arte.

Em um futuro indefinido, a chamada “síndrome de evolução acelerada” mudou completamente os rumos da humanidade. As pessoas agora não sentem mais dor, o que permite a elas trabalharem com essa sensação inexistente de formas desruptivas. Cirurgias estão na lista.

Saul Tenser (Viggo Mortensen) é um artista cujo corpo cria órgãos adicionais, fazendo com que ele tenha diversos cancros em seu organismo. Caprice (Léa Seydoux) é sua ajudante, e tatua os órgãos que são removidos constantemente através de cirurgias performadas para uma grande plateia.

A arte de ambos chama a atenção de dois funcionários públicos, Timlin e Wippet (Kristen Stewart e Don McKellar), que, em um primeiro momento, fiscalizam a atividade, depois, porém, acabam se fascinando por ela.

A partir desse fascínio, surge a sensualidade. Cronenberg consegue criar o conceito de que, neste futuro, a cirurgia é o novo sexo. Inclusive, o espectador mais curioso para saber quando essa realidade poderia se concretizar vai se frustar.

O ambiente do filme é paradoxal e interessantíssimo, a cidade onde “Crimes do Futuro” se passa tem um aspecto de abandono, mas, ao mesmo tempo, todos os personagens parecem ser abastados.

A tecnologia mostrada no filme é assim: são camas, cadeiras, câmeras e equipamentos de cirurgia que possuem uma aparência dos anos 1980, mas conceitos altamente futuristas.

O mesmo acontece, portanto, com as relações físicas.

Em um momento do filme, dois personagens performam um dos únicos beijos que vemos durante uma hora e quarenta minutos. Nisso, o personagem de Viggo Mortensen diz: “Eu não sou muito bom no ‘sexo antigo’”.

O conceito do filme é extremamente criativo e bem construído, ainda mais no momento em que vivemos, quando toda e qualquer arte é considerada pós-moderna e o público reclama da falta de originalidade dos conteúdos que são consumidos todos os dias.

Seria somente a ausência de dor uma solução para esse impasse?

Enquanto a originalidade do longa te deixa matutando por horas a fio, a história, por si só, não prende.

Um dos pontos altos da carreira de Cronenberg é a mistura perfeita entre terror corporal e suspense, com arcos que evoluem e enredos com começo, meio e fim, sem furos.

A atriz Kristen Stewart e Viggo Mortensen em “Crimes do Futuro” / Divulgação

Porém, quando a história se afasta do casal principal, “Crimes do Futuro” parece perder o rumo, agregando personagens sem qualquer desenvolvimento e apressando o próprio ritmo, lento e contemplativo, para que o filme acabe de supetão, funcionando como uma introdução para algo maior que não virá.

A ideia está ali, e é ótima, mas parece que Cronenberg ainda está se aquecendo para retomar aquele gênero cinematográfico único que ele ajudou a criar. Aguardaremos, de bisturi na mão.

Este conteúdo foi originalmente publicado em “Crimes do Futuro” marca a volta de David Cronenberg ao terror corporal no site CNN Brasil.


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