Coproduções brasileiras chamam a atenção do mercado cinematográfico internacional


Quem é o último a sair de uma sala de cinema ou quem deixa o streaming rolando na TV sabe: quando sobem os créditos de um filme internacional, é cada vez mais comum ver um ou outro nome brasileiro aparecer.

Não é novidade termos atores do nosso país atuando mundo afora, mas a situação é diferente quando temos a chamada “coprodução cinematográfica entre países”.

De acordo com a Agência Nacional do Cinema (Ancine), uma coprodução internacional é uma modalidade de produção de uma obra audiovisual realizada por agentes econômicos que exerçam atividade de produção. Ela pode ser sediada em dois ou mais países e contempla o compartilhamento tanto das responsabilidades pela organização econômica da obra, incluindo o aporte de recursos financeiros, bens ou serviços, quanto do patrimônio da obra entre os coprodutores.

Em outras palavras, um filme feito nessas condições pode ter múltiplas nacionalidades, com uma divisão maior das contas e uma intersecção maior de culturas.

Para o produtor e distribuidor Fabiano Gullane, o Brasil é um grande consumidor de conteúdo audiovisual, tanto nacional quanto de Hollywood, portanto, é preciso que o país também detenha algumas propriedades intelectuais produzidas por aqui.

Em 2021, segundo a Ancine, a renda bruta das bilheterias do mercado cinematográfico brasileiro foi de R$ 882 milhões, e deste valor, pouco mais de R$ 15 milhões foi para filmes brasileiros.

“O Brasil tem o direito e o dever de produzir para o setor audiovisual externo”, diz Fabiano. “É um jeito de criar uma via de duas mãos: o mundo compra nossos filmes e nós compramos os deles. Somente assim nos destacamos no mercado internacional.”

A agência também divulgou que, por meio do registro do Certificado de Produto Brasileiro, 176 coproduções foram feitas de 2017 até 2021 – o maior número delas se concentra em 2019: 44.

Não faltam filmes conhecidos do público que tenham sido coproduções brasileiras-internacionais, como por exemplo: “Orfeu Negro” (1960), “Central do Brasil” (1999), “Carandiru” (2003) e “Bacurau” (2019).

Para facilitar as relações cinematográficas, o Brasil possui acordos bilaterais com mais de 10 países, incluindo França, Chile, Israel e Portugal, este último datando de 1981.

Cena do filme "Bacurau".
Cena do filme brasileiro “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho, destaque em 2019 /Divulgação

Burocracia

O diretor português João Mário Grilo nunca havia feito uma coprodução junto ao Brasil, apesar de já ter trabalhado em parceria com diversos países.

O documentário “Escrita íntima” (2022), portanto, é sua “estreia”. A produção conta a história real de um casal que, em meio à Segunda Guerra Mundial, busca refúgio no Brasil. O diretor seguiu a trilha de pistas deixadas pelo casal como cartas, fotos e pinturas e acabou chegando ao Rio de Janeiro.

“O cinema mais autêntico é aquele que está mais próximo de nós, mas prefiro trabalhar em uma coprodução com outro país do que trabalhar em algo somente português”, diz ele. “No Brasil, filmei em apenas duas semanas. O edital autorizando as filmagens demorou quase um ano para sair, porém, a demora me permitiu tocar o projeto com calma”.

A demora burocrática não é incomum no setor. Elias Ribeiro, cineasta e produtor brasileiro sediado na África do Sul, realiza seus filmes com e sem tratados de coprodução, mas diz que, havendo um tratado, a burocracia é sempre maior.

“Quando você não obedece as regras de um tratado, você está menos respaldado, mas também tem um pouco mais de liberdade e agilidade para trabalhar”.

Segundo ele, sem um acordo de coprodução, o fazer do filme é na base da permuta e com os recursos disponíveis.

“Os países com quem mais trabalhamos na produtora são países europeus, mas também já coproduzi com o Brasil. O filme ‘Luna’ (2019), por exemplo, foi feito sem tratados. Ele foi filmado no Brasil, com pós-produção na África do Sul.”

Com mais ou menos burocracia, é claro para cineastas o quão proveitosa é a mescla de culturas que existe ao trabalhar com coproduções. Para Fabiano Gullane, os países que participam de um filme precisam ter um DNA em comum e interesses culturais e dramatúrgicos no processo.

“É difícil você juntar chinês, com brasileiro, com francês. Cada um tem um jeito de pensar e trabalhar, mas é importante que todos enxerguem a mesma história e o mesmo processo produtivo, do contrário, a coprodução se esvazia.”

Investimento

O produtor Elias Ribeiro saiu do Brasil nos anos 1990 e, depois de trabalhar em diversos países, aos 30 anos, se deparou com o cinema africano.

“Resolvi estudar cinema na África do Sul e vi um potencial enorme por lá”, conta. “Eu alinhei meu conhecimento internacional com as histórias africanas que precisavam ser contadas e obtivemos muito sucesso”.

Ribeiro completa sua fala dizendo que um produtor deve saber firmar parcerias e vender ideias, além de conseguir se relacionar no meio das políticas públicas. Já Gullane vai além, apontando que a realização de coproduções é um sinal de saúde da política pública local.

“Coproduções não significam que o mercado brasileiro do audiovisual vai mal e precisa de resgate, pelo contrário”, diz ele. “Ajuda no financiamento é sempre bem-vinda, mas, além disso, a coprodução nos permite participar de festivais no mundo todo, mostrando qual a cara do cinema brasileiro atual e atraindo cada vez mais investimento.”

Este conteúdo foi originalmente publicado em Coproduções brasileiras chamam a atenção do mercado cinematográfico internacional no site CNN Brasil.


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