“Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo” traz reflexão sobre vidas que “poderiam ter sido”


O verdadeiro multiverso chegou aos cinemas brasileiros com a história de Evelyn, uma imigrante chinesa nos Estados Unidos que é casada, tem uma filha lésbica, um pai rigoroso, e uma lavanderia um tanto capenga.

Em meio à confusões com os impostos, ela tem de ir até o Internal Revenue Services, um tipo de receita federal americana, explicar seus gastos, mas não sem antes ser eleita a salvadora de diversas realidades, ameaçadas por uma entidade maligna.

Se acha que “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo” é um filme de ação, está certo e errado também.

“São diversos gêneros em um filme só”, diz Michelle Yeoh, que interpreta a protagonista Evelyn. “Ação, comédia, drama, ficção científica… O título do filme diz tudo”.

Em entrevista à produtora do filme, A24, a atriz disse que assim que recebeu o roteiro das mãos dos dois diretores, Daniel Kwan e Daniel Scheinert, não tinha como não aceitar fazer o papel.

“Tinha de conhecer esses diretores loucos que me mandaram esse roteiro sobre uma mulher imigrante chinesa de meia-idade, quando os conheci, percebi que eles não eram loucos, mas eram insanos, num bom sentido”, diz.

Para a atriz, ter a oportunidade de atuar em um filme como esse só aparece uma vez na vida.

“Esperei muitos anos de carreira para encontrar uma história dessa, mas, ao mesmo tempo, minha experiência me ajudou a desenvolver essa personagem que é a Evelyn”, diz Michelle.

A trajetória da atriz, além de ajudar na construção do papel principal, é homenageada no próprio filme.

Seja através de inserts de Michelle no tapete vermelho de diversos longas como “O Tigre e o Dragão” (2000) e “Além da Liberdade”(2012), seja nas ótimas cenas de luta protagonizadas por ela.

Porém, Evelyn não faz tudo sozinha. Para salvar o multiverso de um ser mal-intencionado, ela conta com a ajuda do seu marido, ou de uma versão dele, Waymond, interpretado por Ke Huy Quan.

O ator vietnamita fez sua estreia em “Indiana Jones e o Templo da Perdição” (1984) e, em quase 40 anos de carreira, trabalhou em 15 filmes. Um número pequeno, mas nada que o multiverso de “Tudo em Todo o Lugar Ao Mesmo Tempo” não compense, fazendo o ator encarnar uma dezena de personagens nas realidades alternativas do longa.

Outros destaques do filme são Stephanie Hsu, que interpreta uma das várias alegorias que vemos ao longo de “Tudo em Todo o Lugar…”, e talvez a mais profunda, e para James Hong, o ator mais do que veterano que, aos 92 anos, interpreta, em uma das realidades, o pai rabugento de Evelyn.

A cereja do bolo fica por conta de Jamie Lee Curtis, que interpreta a fiscal da receita americana, Deirdre, a responsável por colocar Evelyn contra a parede, apesar de se revelar uma manteiga derretida ao decorrer do filme. Fã confessa da atriz Michelle Yeoh, Jamie Lee não hesitou em aceitar o papel.

Jamie Lee Curtis tem participação pequena, mas não recusou o papel/ Divulgação

“Meus agentes me enviaram o roteiro e estavam tentando explicar ele pra mim, dizendo que minha personagem não teria tanto destaque…”, comenta Jamie. “Mas aí eu disse: ‘Peraí, Michelle Yeoh vai estar no filme? Eu faço’”.

A atriz disse em entrevista à produtora A24 que não entendeu o roteiro de primeira, mas entendeu quem eram as personagens Evelyn e Deirdre. E isso, pra ela, bastou.

Repercussão

A aclamação foi unânime nos Estados Unidos em relação ao filme, em abril. Críticos e cinéfilos consideraram “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo” o melhor filme de 2022, apesar de ter passado apenas 4 meses do ano.

Mais dois meses se passaram e a opinião de quem assistiu ao longa continua a mesma.

Seja em sites de críticas especializadas, seja no “Letterboxd”, no “Rotten Tomatoes” ou no “IMDB”, plataformas onde amantes do cinema se reúnem e escrevem suas avaliações, a nota do “Tudo em Todo o Lugar” se aproxima das 5 estrelas, uma fama que se reflete nas bilheterias.

Após nove semanas em cartaz nos Estados Unidos, o filme tornou-se a maior bilheteria da produtora A24, ultrapassando o filme “Hereditário” (2018) e chegado a US$ 80 milhões de arrecadação.

Para Jamie Lee Curtis, a fórmula é simples.

“A combinação de baixo orçamento, com efeitos visuais espetaculares e profundidade é o que eu espero que vá surpreender o público. Quero que digam: ‘Caramba! O cinema está de volta. Isso é um filme com ‘F’ maiúsculo’”, declarou.

Outro longa que também perdura há várias semanas nas salas de cinema americanas, e brasileiras, é “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura”.

Quando o longa da Marvel estreou nas telonas, em maio de 2022, Jamie publicou diversos posts nas redes sociais chamando o filme para a briga, dizendo que os pôsteres de ambos os filmes eram estranhamente muito parecidos e que “Tudo em Todo o Lugar Ao Mesmo Tempo” era a prova de que o cinema independente estava vivo e muito bem.

Nessa mesma entrevista à produtora A24, Jamie bota mais lenha na fogueira.

“Nosso filme é um bilhão de vezes melhor que os filmes da Marvel e custou o mesmo que esses filmes gastam só para servir o lanche no set”, afirmou.

Um dos longas custou aproximadamente 25 milhões de dólares, o outro 200 milhões – já dá para perceber qual é qual.

Neste momento da entrevista, Michelle solta uma risada de nervoso, já que ela fez sua estreia no Universo Marvel alguns anos antes em “Guardiões da Galáxia Vol.2” (2017) e conseguiu um papel de maior destaque em “Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis” (2021).

A atriz não citou a Marvel, mas enalteceu o filme e sua mensagem.

“Nós esquecemos da primeira vez que nos apaixonamos por aquela pessoa, de que fizemos concessões, de que permitimos ao outro ser diferente e agora nos arrependemos? Não, você ama a pessoa pelo que ela é e não pelo que você quer que ela seja”, diz Michelle.

Portanto, se vai ao cinema procurando um filme de ação, somente, prepare o lencinho, pois vai encontrar um longa com lutas de altíssimo nível muito bem coreografadas, mas também sensibilidade, discussões sobre amor e base familiar.

No fim das contas, nada realmente importa, somente o que você se propõe a ser na realidade que se encontra dentre as bilhões que existem por aí.

Este conteúdo foi originalmente publicado em “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo” traz reflexão sobre vidas que “poderiam ter sido” no site CNN Brasil.


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