CNN No Plural+: caminhos da aceitação e a saúde mental de uma comunidade negligenciada


Quando e como você contou para a família quem você é?

Só de ler essa pergunta, volto a sentir a ansiedade, as mãos suando e a taquicardia dos momentos que antecederam a notícia que eu daria a eles. Eu sou gay.

Pensando hoje, treze anos da “revelação”, a pergunta não seria “você sabe o quanto a gente da comunidade LGBTQIA+ sofre até se aceitar”? Ou o “quanto a gente ainda sofre, mesmo depois de se assumir?

Pergunto isso do ponto de vista da saúde mental.  Você já ouviu falar na teoria do estresse de minorias? Quem explica é o psiquiatra e coordenador do Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual (AMTIGOS) da USP, Alexandre Saadeh.

As minorias em geral, especialmente homossexuais ou transgêneros, por serem diferentes, sofrem um preconceito e isso de alguma forma é internalizado e isso causa sofrimento de vários tipos no indivíduo. Então o fato de não se sentir incluído, de se sentir errado, se sentir diferente, mas um diferente com erro, né? Como se você fosse comprometido por ser homossexual, por ser transexual. E aí isso vai causando, ao longo do tempo, uma situação de estresse podendo levar à depressão, ansiedade, abuso de drogas, automutilação, tentativas de suicídio.

Alexandre Saadeh, psiquiatra e coordenador do Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual (AMTIGOS) do IPq-USP

Quando olhamos mais atentos para a comunidade LGBTQIA+, as tentativas de suicídio podem chegar a dez vezes — eu disse DEZ VEZES mais que a população em geral.

O AMTIGOS, ambulatório transdisciplinar de identidade de gênero e orientação sexual, tem 12 anos de existência. Eu já trabalho com a população transexual há mais de 25 anos. Antes era com a população adulta e o AMTIGOS foi aberto em 2010 para trabalhar com a população adulta. Só que os adultos sempre diziam que tudo tinha começado na infância, mas a gente não via nem crianças nem adolescentes. Por conta do preconceito, essa era uma população invisível”, explica o psiquiatra Alexandre.

Só que a população invisível tem sintomas visíveis. Basta prestar atenção. Hoje, o AMTIGOS atende no laboratório crianças e adolescentes com até 15 anos, e possui uma lista de espera de quase 200 famílias esperando por um primeiro atendimento.

Eu me lembro que a minha mãe parou o carro, trancou as portas e falou: Eu preciso ter uma conversa com você aqui agora’. Eu falei: ‘olha mãe, eu não sei o que é ser gay especificamente, mas agora eu gosto de um menino da minha sala. Ela disse coisas que foram muito pesadas como ‘eu preferia morrer, preferia ter câncer a você ser desse jeito. Eu preferia estar na maca de um hospital do que você ser assim”. Quem conta é o cantor, compositor e bailarino baiano Dellima, de 24 anos.

Dellima, ou Ian Carlos Lima, já participou do balé da cantora Ivete Sangalo e hoje aposta na carreira de cantor / Bruno Hierro

Eu comecei a entrar nesse lugar de autodepreciação. Já tive algumas tentativas de tirar minha própria vida. Ansiedade, à noite, era sempre o pior momento assim para mim, porque quando eu ia dormir tudo passava pela minha cabeça e eu simplesmente não queria estar ali, porque eu não me sentia uma pessoa amada, querida, desejada pelas pessoas ao meu redor e tudo isso por uma condição que era simplesmente quem eu era então, naquele momento, eu percebi que talvez estivesse sozinho por conta disso, por conta da minha sexualidade, por conta do meu jeito de ser.

Dellima, artista queer não-binário

Quem também sentiu o peso de se assumir foi o ex-policial militar do Distrito Federal, Henrique Harrison, de 30 anos. Quem não lembra da foto dele beijando o marido no dia da formatura na corporação? Segundo Henrique, seus problemas psicológicos começaram ali, já que alega ter sido perseguido por sua orientação sexual.

Eu comecei a perder o sono. Nunca tive problema para dormir, sempre chegava e capotava. Mas eu sabia que eu estava muito cansado. Virava a noite trabalhando, eu chegava em casa e não conseguia trabalhar, não conseguia dormir também. Com pouco conhecimento de depressão e ansiedade, assim como a maioria da população, meu marido não conseguiu me dar o suporte no primeiro momento. Até entender o que estava acontecendo, achava que era um problema entre a gente e aquilo foi virando uma bola de neve.

Henrique Harrison, ex-policial militar

O ex-PM Henrique Harrison, que saiu da corporação e hoje mora nos EUA / Arquivo pessoal

A falta de conhecimento por parte da família, por preconceito ou até mesmo por achar que depressão e ansiedade são vistas como “frescuras” deixa o processo ainda mais doloroso. “Então até meu pai falava que ‘Ah isso é frescura. Não consegue passar por isso. Eu acho que, na minha família, eles só viram de verdade o que estava acontecendo comigo quando eu tive uma crise de pânico. Eu me vi preso, comecei a chorar, sentei no chão e deitei e falei que eu só queria trabalhar, que eu só queria ser feliz.”, desabafou o ex-soldado.

O psiquiatra Alexandre Saadeh nos informa os principais sintomas que precisamos ficar atentos:

A depressão você vai ter uma tristeza profunda, uma perda de vontade, uma falta de prazer. Aquilo que te animava no dia a dia não te anima mais, você não vê o colorido das coisas, tudo fica muito cinza. Você pode perder o apetite ou aumentar o apetite, perder o sono, dormir muito, você perde a libido. Os vínculos, você não quer conversar você não quer participar de nada que tenha muita agitação, você vai se recolhendo e se isolando. A ansiedade você tem uma sensação de que algo errado, algo muito grave vai acontecer. Às vezes você nem sabe o que, mas fica aquela sensação de uma expectativa de que algo ruim está acontecendo. Você tem o coração disparado, a respiração é curta e rápida. A boca é seca, você fica pálido, você tem tremor. É uma sensação muito ruim, muito péssima. Então esses são os principais sintomas dos dois quadros. Às vezes eles acontecem juntos, aí beiram o insuportável

Alexandre Saadeh, psiquiatra e coordenador do Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual (AMTIGOS) do IPq-USP

O psiquiatra Alexandre Saadeh trabalha com a população LGBTQIA+ há mais de 25 anos / Arquivo pessoal

Beirar o insuportável. Parece que só assim a gente, como comunidade LGBTQIA+ consegue despertar o olhar de quem está bem do nosso lado de que existe um problema real a ser tratado.

E felizmente há tratamento e acolhimento.

Em São Paulo, nos últimos cinco anos, quem se encontra em situação de vulnerabilidade por ser LGBTQIA+ pode contar com a ajuda da Casa 1. O local acolhe pessoas de orientações e identidades de gênero diferentes. Conversamos com Iran Giusti, fundador da Casa1.

Nesses cinco anos de casa, a gente entendeu que era impossível a gente falar sobre acolhida, sobre a abrigamento e sobre luta e sobrevivência LGBTQIA+, sem a gente olhar pra saúde mental, em especial pelo recorte que a gente tem. A gente tem desde o plantão de escuta, que são atendimentos pontuais, emergenciais de certa forma para lidar com questões que estão mais latentes, até os acompanhamentos psicoterápicos continuados e entendendo a necessidade, o acompanhamento psiquiátrico

Iran Giusti, fundador da Casa1

Em todos esses anos, a casa de apoio já passou dos quarenta mil atendimentos e se tornou uma das principais referências culturais para a população LGBTQIA+.

Centro de acolhida da Casa1 / Divulgação/Casa1

Ainda que o tratamento psicológico e psiquiátrico esteja disponível na rede pública, sabemos que não podemos encontrar esse acompanhamento, proporcionalmente à demanda, em todas as regiões do país. São Paulo ainda é uma referência nesse tipo de tratamento.

Uma pena, porque problemas que afetam a nossa saúde mental não se resolvem de um dia para o outro, e precisam ser tratados com a mesma urgência que todos as outras questões que ultrapassam nossos corpos.

Precisamos de anos de tratamento para dar conta de anos de preconceito.

*Produção: Letícia Brito

*Apoio: Carolina Raciunas

Este conteúdo foi originalmente publicado em CNN No Plural+: caminhos da aceitação e a saúde mental de uma comunidade negligenciada no site CNN Brasil.


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