Guia das ex-repúblicas soviéticas


Texto Rafael Battaglia Ilustração Gustavo Magalhães Design Juliana Krauss Edição Alexandre Carvalho

“A maior tragédia geopolítica do século 20.” Foi assim que Vladimir Putin definiu o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) durante um discurso na TV russa, em 2005.

Tendo chegado a abrigar 280 milhões de pessoas em uma área correspondente a um sexto da superfície terrestre, a União Soviética terminou oficialmente no Natal de 1991, com a renúncia do presidente Mikhail Gorbachev. Mas não foi surpresa para ninguém.

O bloco comunista havia perdido força no final dos anos 1980. As reformas do próprio Gorbachev deram origem a eleições democráticas e a uma economia mais alinhada aos princípios ocidentais. A crescente insatisfação popular, materializada na queda do Muro de Berlim, em 1989, fez surgir uma série de movimentos de independência.

Ilustração do mapa da URSS.

Algumas das novas repúblicas, agora livres para assumir seus próprios rumos, tiveram seu momento de euforia: destruíram antigos símbolos soviéticos e retomaram idiomas e hábitos culturais locais, que haviam sido proibidos durante o regime. Mas não foi uma transição calma. As fronteiras erguidas complicaram a vida de milhões de pessoas que viviam longe de sua terra natal. Além disso, muitas nações continuaram dependentes da economia russa.

Para piorar, conflitos separatistas eclodiram e seguem sem resolução – os do leste da Ucrânia são um deles, claro. Entenda melhor a realidade das 14 ex-Repúblicas Soviéticas em torno da Rússia:

<span class="hidden">–</span>Gustavo Magalhães/Juliana Krauss/Superinteressante

Cazaquistão

Cosmódromo de Baikonur, a 1.300 quilômetros ao sul da capital Nursultan.Gustavo Magalhães/Superinteressante

Com 2,7 milhões de quilômetros quadrados, é o maior país do mundo sem saída para o oceano. Mas com uma bela saída para o espaço: em 1955, a então União Soviética inaugurou por lá o Cosmódromo de Baikonur, primeira e maior base de lançamentos espaciais da URSS. Dali saíram o Sputnik 1 (primeiro satélite da história) e o voo em que Iuri Gagarin viu que a Terra era azul mesmo. As missões Soyuz até a Estação Espacial (tocadas pela Rússia) saem até hoje lá de Baikonur mesmo.

Com exceção da Rússia, o Cazaquistão possui a maior reserva de petróleo dentre as antigas repúblicas soviéticas – o campo de Kashagan, no Mar Cáspio, foi descoberto no ano 2000 e produz 400 mil barris por dia. Mas a prosperidade econômica não se refletiu em avanço político: o ex-presidente Nursultan Nazarbayev, que governou de forma autoritária entre 1984 e 2019, construiu estátuas de si mesmo pelo país e renomeou a capital em sua homenagem. Em 2022, seu sucessor, Kassym-Jomart Tokayev, instituiu toque de recolher e proibiu grandes reuniões após protestos sobre o aumento no preço do gás.

Uzbequistão

A cidade murada de Itchan Kala, fundada no século 6 a.C. e patrimônio mundial da Unesco.Gustavo Magalhães/Superinteressante

Ao longo da história, o território uzbeque já pertenceu aos persas, macedônios e mongóis. Tamerlão, que se inspirou em Genghis Khan para criar o Império Timúrida no século 14, nasceu no atual Uzbequistão, próximo à Samarcanda, importante cidade da Rota da Seda entre o Oriente e a Europa.

Hoje, o país gira em torno do ouro. O metal representa metade das exportações. Muruntau, localizada no meio do deserto de Qizilqum, é uma das maiores minas de ouro a céu aberto do mundo – de lá saem 60 toneladas do material todo ano.  

Após o 11 de Setembro, o Uzbequistão cooperou com os EUA e proveu instalações militares e rotas para as operações no vizinho Afeganistão. Mas esse namoro durou pouco: o Ocidente cortou relações com o país em 2005, quando o governo do ex-presidente Islam Karimov matou 500 manifestantes na cidade de Andijan.

Tajiquistão

Pico Ismail Samani, o mais alto do país (7.495 metros).Gustavo Magalhães/Superinteressante

Árvores de Natal. Fogos de artifício no Ano-Novo. Tudo isso é proibido no Tajiquistão, a mais pobre das antigas repúblicas soviéticas. O PIB per capita é de US$ 859; equivalente ao de países da África subsaariana e oito vezes menor que o do Brasil. 90% do território é coberto por montanhas, o que dificulta a produção de alimentos e o comércio.

Ao final da URSS, o país mergulhou em uma guerra civil entre os entusiastas do novo governo, que recebeu apoio militar da Rússia, e a oposição, liderada por uma aliança nacionalista e islâmica. O conflito terminou em 1997, com um saldo estimado de 100 mil mortos. 

O Tajiquistão concentra esforços para criar leis que exaltam a cultura local – ainda que isso signifique restringir liberdades individuais. Por exemplo, a legislação limita quanto se pode gastar em casamentos e funerais. Pais não podem batizar filhos com nomes estrangeiros. Até os restaurantes são obrigados a ter nomes tajiques. 

A economia se baseia na extração de metais. Ouro e alumínio representam mais da metade das exportações do país.

Quirguistão

Estátua do herói nacional Manas na capital Bishkek. Antes, havia uma estátua de Lenin.Gustavo Magalhães/Superinteressante

500 mil versos. Esse é o tamanho do Épico de Manas, poema do século 18 e maior símbolo cultural do Quirguistão. Dá nome a estrada, universidade, aeroporto – e até ao país. “Quirguiz” vem da expressão em turco para “quarenta”, uma referência aos 40 clãs da história do herói Manas. O sol da bandeira do Quirguistão também tem 40 raios.

Desde 2005, revoltas populares forçaram três presidentes a renunciar. E, assim como alguns vizinhos da Ásia Central, essa terra montanhosa (onde só 36% da população vive em áreas urbanas) tem o ouro como o maior produto de exportação. Mas a principal fonte de dinheiro vem de fora: são as remessas que os quirguizes que trabalham no exterior (a maior parte na Rússia) enviam ao país. Essa grana representa 31% do PIB.

Turcomenistão

Palácio da Felicidade em Ashgabat (conhecida como “Cidade Branca” pelas obras em mármore). Custou US$ 133 milhões e é usado para casamentos.Gustavo Magalhães/Superinteressante

Quem passeia pela capital Ashgabat dá de cara com uma estátua dourada de Saparmurat Niyazov, que assumiu a presidência em 1985, ainda na época soviética. Ao que parece, ele gostou do poder: tornou seu cargo vitalício em 1999. 

Niyazov, que morreu em 2006, era um líder egocêntrico. Ele se autointitulou Turkmenbashi, “pai de todos os turcomenos”, e mudou os nomes dos meses do ano para homenagear sua própria família. Seu livro, Rukhnama, era leitura obrigatória nas escolas. Também proibiu o balé e homens de ouvirem rádio no carro. Com o dinheiro vindo do gás (o país tem uma das maiores reservas do mundo), construiu obras excêntricas, como um lago artificial, uma estação de esqui e um palácio de gelo – tudo no meio do deserto.

O Turcomenistão é o décimo país mais corrupto do mundo e o penúltimo no ranking de liberdade de imprensa – perde só para a Coreia do Norte. Na sua lista de proibições, está também o uso da palavra “coronavírus”; o governo nega a pandemia até hoje. E se você achou a estátua dourada o auge, saiba que o sucessor de Niyazov, Gurbanguly Berdimuhamedow, fez uma também – mas do seu cachorro.

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Lituânia

Colina das Cruzes, local de peregrinação católica, quase<br />destruído pelos soviéticos.Gustavo Magalhães/Superinteressante

Em um país com 74% de católicos, a maior celebração não é religiosa: o Lithuanian Song Festival acontece a cada quatro anos e reúne mais de 40 mil participantes, entre corais e grupos de dança. Festivais similares rolam também na Estônia e na Letônia desde o século 19. É algo tão intrínseco à cultura báltica que essas festas viraram patrimônio imaterial da Unesco.

A tradição musical inspirou o nome da Singing Revolution (to sing, em inglês, é “cantar”), o movimento desses três países de independência da União Soviética, que os havia incorporado à força em 1940. O ápice dessa revolução foi a Corrente Báltica – um cordão humano formado por 2 milhões de pessoas, que se estendeu por 600 km entre as capitais Tallinn (Estônia) e Villnus (Lituânia), em 1989. No ano seguinte, a Lituânia foi a primeira república da URSS a se declarar independente, mais de um ano antes da dissolução oficial do antigo país.

Estônia

Distrito financeiro da capital Tallinn, onde mora um terço da população da Estônia.Gustavo Magalhães/Superinteressante

Após o fim da União Soviética, a Estônia investiu pesado em tecnologia para acelerar o crescimento econômico. Deu certo: hoje, o país de 1,3 milhão de habitantes (menos que Porto Alegre) orgulha-se de ter todos os serviços públicos digitalizados. Com o “RG eletrônico”, estonianos pagam contas, registram carros, votam e têm acesso a um histórico médico integrado. Em 2008, o país liderou a criação de um braço da OTAN (a aliança militar do Ocidente) focado em cibersegurança.

O ecossistema digital da Estônia é propício para companhias tech (o Skype, por exemplo, nasceu lá). O programa E-residency permite que não residentes abram empresas, usem bancos e processem pagamentos no país, tudo a distância. Outros projetos visam a atrair estrangeiros para trabalhar presencialmente – uma tentativa de frear o declínio populacional, que chegou a 15% em três décadas.

Letônia

Centro histórico da capital Riga. Fundada no século 13, era um importante entreposto comercial da Europa Central e Oriental.Gustavo Magalhães/Superinteressante

Dona da segunda bandeira mais antiga do mundo ainda em uso (desde 1279; a da Dinamarca – de 1219 – é a primeira), a Letônia foi o membro da União Europeia mais atingido pela crise de 2008. O PIB encolheu 24% e a taxa de desemprego chegou a 19,5%. 

Cortes na máquina estatal propiciaram uma recuperação acelerada (hoje, o desemprego está em 8%, contra 11,2% do Brasil). O país tem se tornado um centro financeiro emergente, atendendo empresas russas e de outras antigas repúblicas soviéticas.

Mas a instabilidade financeira deixou um legado preocupante. A Letônia enfrenta uma fuga de cérebros – e sofre com a falta de mão de obra qualificada. Na primeira década do século 21, a população diminuiu 13%. Dos que caíram fora, 80% têm menos de 35 anos. Eles seguem os passos de um letão notável: Jacob Youphes, que inventou a calça jeans nos anos 1870 – mas só depois de emigrar para os EUA.

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Geórgia

Ponte da Paz, que liga o Parque Rike com o centro velho da capital Tbilisi.Gustavo Magalhães/Superinteressante

A terra natal do ditador Josef Stalin enfrentou uma guerra civil nos três anos seguintes ao fim da União Soviética, motivada por dois conflitos separatistas e pelo apoio dividido da população ao presidente Zviad Gamsakhurdia.

No começo do século 21, novas políticas acenaram ao Ocidente, e o país demonstrou interesse em aderir à OTAN e à União Europeia (o que ainda não se concretizou). Em 2006, a Rússia respondeu com um golpe econômico: proibiu as importações de vinho, quarto maior produto de exportação da Geórgia. Os russos compravam 95% da bebida de lá.

A solução foi procurar outros compradores – e deu certo. O vinho ajudou a espalhar a palavra do país, conhecido por sua hospitalidade e culinária. A Geórgia, aliás, é o berço da bebida: há registros da produção do fermentado que datam de 8 mil anos atrás, os mais antigos já encontrados.

Armênia

Vista da capital, Yerevan, com o Monte Ararat ao fundo.Gustavo Magalhães/Superinteressante

Fundada em 782 a.C., Yerevan é uma das cidades habitadas mais antigas do mundo – e capital do país mais pobre do Cáucaso. Foi também o primeiro lugar a adotar o cristianismo como religião oficial, em 301 d.C.

Durante o regime soviético, Yerevan virou a “Cidade Rosa”. Mas não se trata de flores: os prédios construídos usaram rochas vulcânicas (e rosadas) do Monte Ararat – aquele onde Noé estacionou sua arca, na mitologia bíblica. 

O monte é um dos símbolos da Armênia, mas fica na Turquia, com a qual até pouco tempo o país não mantinha relações comerciais e diplomáticas. Motivo: o genocídio de 1,5 milhão de armênios entre 1915 e 1918 pelo Império Turco-Otomano. 

Para fugir do massacre, muitos se estabeleceram em outros países. Hoje, há mais descendentes fora do país (7 milhões) do que habitantes (3 milhões). Kim Kardashian, Cher, Andre Agassi, Alain Prost… Todas essas figuras têm raízes armênias. Em São Paulo, há a estação Armênia do Metrô, batizada em homenagem à comunidade armênia da capital paulista. 

Azerbaijão

As Flame Towers, arranha-céus de Baku que lembram chamas de fogo – referência às reservas energéticas do país.Gustavo Magalhães/Superinteressante

Este pequeno país de maioria islâmica começou a década de 1990 com uma derrota militar: perdeu o controle do enclave de Nagorno-Karabakh, localizado em seu território, mas de população majoritariamente armênia. 

O caos que acompanhou o conflito abriu espaço para o retorno do presidente Heydar Aliyev, que havia comandado o país por 13 anos durante o regime soviético. Em 2003, quem o sucedeu foi o filho, Ilham, sob acusações de fraude eleitoral. Não à toa, o Azerbaijão é mal avaliado em índices que medem liberdades civis e de imprensa.

Mas estão bem de grana. As exportações de petróleo e gás natural garantiram anos de prosperidade econômica. Em 2006, quando o país inaugurou um oleoduto em direção ao Ocidente, o PIB cresceu 34,5%. O maior retrato da bonança é a capital, Baku, lar de modernos arranha-céus, um GP de F-1 (honraria que a Rússia perdeu) e de excentricidades, como a “Pequena Veneza”, repleta de canais artificiais – e passeios de gôndola.

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Moldávia

Igreja ortodoxa (religião seguida por 92% da população) em Orheiul Vechi, importante sítio arqueológico do país.Gustavo Magalhães/Superinteressante

US$ 1 bilhão. Essa é a quantia que sumiu das três maiores instituições financeiras da Moldávia em 2014, via empréstimos a destinatários não rastreáveis. O dinheiro desviado equivale a 12,5% do PIB do país – e o caso segue sem solução.

O “roubo do século”, como ficou conhecido o golpe bancário, é só o exemplo mais recente da fragilidade da Moldávia, uma das nações mais pobres da Europa (US$ 4.551 de PIB per capita) e dependente da agricultura. Ainda em 2014, um aceno moldavo à União Europeia, bloco do qual o país deseja fazer parte, fez a Rússia, seu segundo maior parceiro comercial, impor sanções aos produtos agrícolas do país.

A Moldávia mantém boas relações com as vizinhas Romênia, com quem compartilha o romeno como idioma oficial, e a Ucrânia – em 2005, o país, até então sem saída para o mar, ganhou dos ucranianos uma faixa de 600 metros do Rio Danúbio, que deságua no Mar Negro. 

Belarus

Biblioteca Nacional localizada na capital, Minsk. Em 2022, ela completa 100 anos.Gustavo Magalhães/Superinteressante

Nesse país pouco maior que o Paraná, velhos hábitos do regime soviético permanecem: manifestações são repreendidas à força pelo governo e a imprensa é tolhida, vigiada. Uma mudança na Constituição permite a volta de armas nucleares russas ao país pela primeira vez desde 1990.

O responsável por essa atmosfera é o presidente Alexander Lukashenko. Vendendo-se como um político fora dos padrões e com a promessa de acabar com a corrupção, ele assumiu o cargo em 1994 – e de lá não saiu. Alterou a legislação para permanecer no poder, perseguindo a oposição, e em 2020 venceu a sua sexta eleição com 80% dos votos – garantindo a presidência até 2035. Sob protestos e alegações de fraude, a posse aconteceu durante uma cerimônia secreta.

O país é aliado da Rússia, e dependente dela: metade de suas exportações e importações se dão com o vizinho poderoso, que já cortou o fornecimento de gás e eletricidade de Belarus por atrasos no pagamento. 

Ucrânia

Estátua no centro da Praça da Independência em Kiev, palco das principais manifestações do país.Gustavo Magalhães/Superinteressante

A Ucrânia deu origem à Rússia – não o contrário, como Putin costuma alegar. Quando povos da Escandinávia atravessaram as florestas da Europa Central em busca de terras férteis, fixaram moradia na atual Ucrânia. No século 9, fundaram Kiev, capital de Kievan Rus, o primeiro Estado eslavo, e berço da Rússia (daí vem o nome do país maior, que significa “terra dos remadores” – uma referência viking). Foi na Península da Crimeia que o príncipe Vladimir I escolheu o cristianismo ortodoxo como a religião oficial de lá – e que é seguida por 70% dos russos e ucranianos até hoje.

O segundo maior país da Europa é pobre (tem a menor renda per capita do continente) e dividido – a parte ocidental apoia a aproximação com o Ocidente, enquanto a oriental é alinhada à Rússia. É pela Ucrânia que passam os gasodutos por onde a Rússia exporta 30% de todo o gás consumido na Europa. Daí boa parte do interesse russo – uma possível adesão da Ucrânia à UE e à OTAN (e a consequente perda de influência na região) seria um pesadelo econômico para Putin. 

REGIÕES EM DISPUTA

Estes lugares lutam para conseguir o próprio território – e o reconhecimento do resto do mundo.

<span class="hidden">–</span>Gustavo Magalhães/Superinteressante

1 – Transnístria

Separou-se da Moldávia após um curto confronto em 1992. Tem quase todos os elementos de um Estado, mas não é reconhecido por nenhum membro da ONU. Nem mesmo a Rússia, cuja ajuda financeira e militar é vital para a região. Ainda mantém diversos símbolos soviéticos, como uma estátua de Lenin na capital, Tiraspol, e a foice e o martelo, presentes na bandeira. Uma única empresa, a Sheriff, é dona de quase tudo por lá, de postos de gasolina a times de futebol.

2 – Ossétia do Sul

Originário do sul da Rússia, o povo osseatiano tem língua e cultura diferentes da Geórgia, de quem se declarou independente no final de 1991. Mas faltou combinar com o governo da Geórgia, que jamais reconheceu a declaração. Em 2006, um referendo mostrou que 51 mil osseatianos (99% dos votos) eram a favor de separar-se da Geórgia; e o governo central ignorou de novo. Dois anos depois, para travar a adesão da Geórgia à OTAN, Putin enviou 40 mil soldados à região e reforçou o conflito separatista. Em 2022, a Ossétia do Sul expressou o desejo de ser anexada pela Rússia.

3 – Crimeia

Gregos, romanos, mongóis, otomanos. Diversos povos, em algum momento, ocuparam essa península fértil e com localização estratégica no Mar Negro. No século 18, o Império Russo dominou a Crimeia que, após um breve período de independência, virou parte da URSS. Acabaria integrada à então República Soviética da Ucrânia, mas a maioria russa da população não gostou da aproximação do país com a União Europeia. Desde 2014, separatistas recebem apoio da Rússia, que anexou a região.

4 – Donetsk e Lugansk

Por séculos, a região de Donbass (que engloba Donetsk e Lugansk) foi do Império Russo. E, durante o período soviético, milhões de russos se estabeleceram por lá. Resultado: um fraco sentimento nacionalista em relação à Ucrânia, a quem pertecem hoje. A maior parte da população fala russo e, em 2010, apoiou Viktor Yanukovych, candidato à presidência que defendia a aproximação com o país de Putin. Até o início da Guerra da Ucrânia, os conflitos separatistas na região já haviam matado 14 mil pessoas.

5 – Abecásia

No século 19, o Império Russo dominou a região e incentivou a ocupação de outros povos – algo que se intensificou durante a URSS: em 1939, georgianos compunham 45% da população da Abecásia; abecazes mesmo, só 17%. As praias do Mar Negro e as montanhas enevadas atraíam a elite soviética. 10 mil pessoas morreram na guerra pela independência da Geórgia, que terminou em 1993. Hoje, apenas cinco países a reconhecem como nação – entre eles, a Rússia, que mantém bases militares por lá.

6 – Nagorno-Karabakh

Fica dentro do Azerbaijão, mas 95% da população é armênia. Desde o começo da URSS, havia a intenção de integrar a região à Armênia – o que nunca aconteceu. Em 1988, a guerra eclodiu. A Rússia mediou um cessar-fogo, mas a situação ficou mal-resolvida, com Nagorno (e boa parte do sudoeste azerbaijão) sob controle dos separatistas. Em 2020, um novo capítulo do confronto matou 6,5 mil pessoas e gerou um novo acordo de paz – que obrigou os armênios a desocupar regiões.

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