Fortaleza supera adversidades, garante o bicampeonato da Copa do Nordeste e sobe ainda mais de patamar


Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a atuação do time de Juan Pablo Vojvoda na vitória suada sobre o Sport de Gilmar Dal Pozzo

O senso comum futebolístico costuma dizer que finais não foram feitas para serem jogadas, e sim para serem vencidas. Esse foi mais ou menos o espírito de Fortaleza e Sport no jogo que decidiu o campeão da Copa do Nordeste de 2022. Muita disposição por parte das duas equipes, ótimo trabalho tático, muitas polêmicas da arbitragem e reviravoltas de todos os tipos. Acabou que o time comandado por Juan Pablo Vojvoda executou melhor seu plano de jogo e teve mais força mental para superar as adversidades do jogo deste domingo (3) numa encharcada Arena Castelão. O escrete de Gilmar Dal Pozzo até pode reclamar de algumas marcações do árbitro Marielson Alves Silva. Mas é preciso dizer que o Leão (da Ilha) acabou sentindo um pouco a pressão e a qualidade do seu forte adversário. Melhor para o Fortaleza.

A grande surpresa da decisão estava nas escalações das duas equipes. Enquanto Juan Pablo Vojvoda mantinha seu 3-4-1-2 costumeiro (que tinha Lucas Lima jogando como uma espécie de “enganche” atrás de Moisés e Renato Kayzer e muita força na marcação por dentro), o técnico Gilmar Dal Pozzo também apostou no esquema com três zagueiros para formar uma linha de cinco na frente da sua área e tirar a superioridade numérica do Fortaleza quando Yago Pikachu e Juninho Capixaba avançavam para o ataque. Mais à frente, Denner e Luciano Juba organizavam o jogo e sempre procuravam Parraguez e Bill na construção das jogadas de ataque. Apenas Willian Oliveira guardava posição no 3-1-4-2 utilizado pelo Sport no início da partida.

O problema é que o Leão (da Ilha) protegia muito mal o seu trio de zagueiros. Não foram poucas as vezes em que Lucas Lima recebeu a bola na intermediária com total liberdade para acionar a dupla de ataque do Fortaleza. Aliás, é preciso dizer que o escrete de Gilmar Dal Pozzo concedeu espaços demais entre suas linhas e só não levou o gol mais cedo porque o Leão (do Pici) utilizava muito pouco as jogadas por dentro. Postura natural diante da configuração proposta por Juan Vojvoda e da característica dos jogadores que estavam em campo. Nesse cenário, quem se destacava era o veloz atacante Moisés, talvez o grande ponto de desequilíbrio do sistema ofensivo de um Fortaleza intenso e bastante concentrado.

Lucas Lima recebe a bola na intermediária, vê Renato Kaizer arrastando a zaga adversária e Moisés atacando o espaço às costas dos alas Ewerthon e Sander. O Sport apresentou problemas de compactação defensiva no início do jogo. Foto: Reprodução / YouTube / Copa do Nordeste

Mas talvez o grande problema do Sport tenha sido a falta de marcação na frente da área do goleiro Maílson. O Fortaleza, por sua vez, quase não aproveitou esse espaço que lhe foi concedido várias e várias vezes mesmo levando vantagem na maioria dos duelos no campo do adversário. Tudo porque Willian Oliveira demorava muito para recompor a marcação e Luciano Juba e Bill contribuíam muito pouco na recomposição. Acabou que o time de Gilmar Dal Pozzo abria uma verdadeira cratera por dentro e se expunha demais para um adversário que não explorou essa deficiência. Não foi por acaso que a penalidade convertida por Yago Pikachu no final da primeira etapa tenha surgido de uma das poucas vezes em que Moisés saiu da esquerda, atacou as costas da defesa e veio jogar um pouco mais por dentro.

O Fortaleza quase não explorou o espaço que o Sport concedia na frente da sua área. Moisés até que tentou buscar esse espaço, mas faltou Lucas Lima aparecer mais pelo centro para tentar a finalização de média distância. Foto: Reprodução / YouTube / Copa do Nordeste

A segunda etapa nos trouxe um Sport mais organizado e mais compactado na sua defesa contra um Fortaleza que claramente apostava nos contra-ataques com seu bloco mais baixo. A entrada de Pedro Naressi no lugar de Bill deu ao Leão (da Ilha) o elemento que faltava no meio-campo: um volante que fechasse a entrada da área e que ainda pisasse na área. Só que a grande diferença estava na formação utilizada por Juan Vojvoda. Com José Welison e Hércules presentes e bastante atentos na proteção da zaga, o Fortaleza protegia a entrada da área do goleiro Max Walef e obrigava os atacantes do Sport apelar para os cruzamentos. Ainda que o escrete comandado por Gilmar Dal Pozzo tenha levado certo perigo em alguns deles, faltava uma certa dose de intensidade nas trocas de passe. Alguém que arrastasse a zaga e abrisse espaços.

José Welison e Hércules protegiam bem a entrada da área do Fortaleza e não permitiam que o Sport pudesse atacar por ali. Faltava ao Leão (da Ilha) mais intensidade e mais velocidade para desarrumar a zaga adversária. Foto: Reprodução / YouTube / Copa do Nordeste

Na prática, o Sport só conseguia ser efetivo quando explorava a velocidade dos seus laterais às costas de Yago Pikachu e Juninho Capixaba. Como na penalidade (posteriormente anulada pelo VAR) sofrida por Sander. Aliás, a arbitragem de Marielson Alves Silva foi um caso à parte no Castelão com marcações confusas, falta de pulso para controlar os nervos e uma nítida falta de segurança. Na opinião deste que escreve, no entanto, o árbitro acertou na expulsão de Robson e na anulação do gol de Parraguez já nos acréscimos. E a grande verdade é que tudo parecia apontar para o título do Fortaleza desde o início da partida. O bicampeonato da Copa do Nordeste foi conquistado com uma campanha invejável que teve a marca de Juan Pablo Vojvoda, talvez um dos grandes técnicos do futebol brasileiro na atualidade.

O título da “Lampions League” também eleva demais o patamar do Fortaleza. De equipe que sofria para sair da Série C para a disputa da primeira Libertadores de sua história em apenas poucos anos, o Leão (do Pici) colhe os frutos de todo o belíssimo trabalho realizado pela sua diretoria, pela sua comissão técnica e (é claro) pelos jogadores. Assim como o Sport mostrou que tem sim condições de sair da Série B e voltar para a elite, o Fortaleza mostrou que pode sim se manter no primeiro escalão do futebol brasileiro. E isso tudo sem grandes estrelas e sem um orçamento milionário como acontece em Palmeiras, Flamengo e Atlético-MG. Nomes como Renato Kayzer, Tite, Marcelo Benevenuto, José Welison, Lucas Lima, Moisés e Yago Pikachu se complementam e se potencializaram sob o comando de Juan Vojvoda.

O treinador argentino talvez seja o grande vencedor desse domingo (3). Não somente pelos títulos, mas por ter mostrado que é possível montar um time de alto nível com criatividade, muito trabalho e sem se gastar muito. A confiança no trabalho de Vojvoda parece ter sido o golaço da diretoria do Fortaleza. Difícil não olhar o Leão (do Pici) com outros olhos daqui pra frente. Afinal de contas, o time subiu definitivamente de patamar.

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