Fifa se reúne com governo do Catar para discutir direitos trabalhistas


Apouco mais de 250 dias do início da Copa do Mundo, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, se reuniu nesta terça-feira, 15, com o Ministro do Trabalho do Catar, Ali bin Samikh Al Marri, em Doha. Segundo a entidade, o objetivo era debater os “importantes avanços alcançados na área de bem-estar e direitos trabalhistas dos trabalhadores” desde que o país árabe foi escolhido como sede da Copa do Mundo deste ano, em 2010. A organização do Mundial convive, há muitos anos, com denúncias sobre exploração e trabalho análogo à escravidão na construção das arenas. 

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Em seu comunicado, a Fifa diz que busca deixar um “legado social duradouro do principal evento do futebol no país anfitrião”. “Temos que reconhecer o importante progresso que foi alcançado no Catar na última década”, disse Infantino. “Reformas legislativas marcantes foram introduzidas e já trouxeram benefícios concretos para centenas de milhares de trabalhadores migrantes.”

“O Estado do Catar foi pioneiro na modernização das leis e regulamentos trabalhistas relativos ao bem-estar dos trabalhadores. Tais reformas são baseadas em uma estrutura legal e legislativa que continuará a ser aplicada após a Copa do Mundo”, completou Ali bin Samikh Al Marri.

A nova lei citada por eles aumentou o salário mínimo para 280.000 trabalhadores (13% da força de trabalho total). Além disso, desde maio de 2021, vigora uma legislação que proíbe o trabalho ao ar livre em temperaturas acima de 32,1°C, o que resultou no fechamento de 338 empresas que descumpriram a lei. 

Ainda segundo o comunicado da Fifa, as reformas trabalhistas incluem novos regulamentos sobre pagamento de horas extras, rescisão e condições de emprego para trabalhadores domésticos, a criação de 14 novos Centros de Vistos do Catar em vários países de origem, bem como a criação de comitês conjuntos para facilitar a participação dos trabalhadores nas empresas em colaboração com BWI, ITF e UNI Global Union.

As discussões ocorrem após uma reunião realizada na segunda-feira, 14, na sede da Fifa com representantes da Anistia Internacional para discutir a situação dos trabalhadores migrantes no Catar.

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Polêmicas sobre direitos humanos

Causou espanto, em dezembro de 2010, quando o suíço Joseph Blatter, então presidente da Fifa anunciou o pequeno emirado do Golfo Pérsico, com 2,8 milhões de habitantes e praticamente nenhuma tradição no futebol, como sede da Copa do Mundo de 2022, desbancando as candidaturas de Estados Unidos, Austrália, Japão e Coreia do Sul. Por razões políticas, econômicas e humanitárias, as contestações foram imediatas, na esteira dos escândalos de corrupção que derrubaram Blatter e sua turma.

Pela primeira vez na história, a Copa acontecerá no fim do ano, entre 21 de novembro e 18 de dezembro, para poupar os atletas e torcedores dos mais de 40 graus do verão, algo que nem mesmo os ultramodernos aparelhos de ar-condicionado instalados nos estádios seria capaz de minimizar.

Haverá, portanto, um caos ainda maior no calendário do futebol, mas quem na Fifa se importa? A Copa gera fortunas para a entidade (foram cerca de 6 bilhões de dólares de lucro na Rússia, em 2018, e 4,8 bilhões de dólares no Brasil, em 2014) e não haveria de ser diferente na terra governada pelo emir Tamim bin Hamad Al Thani e impulsionada economicamente pela exploração de petróleo.

PROTESTO - Cartão vermelho: as condições dos trabalhadores são alvo de suspeitas –Alessandro Della Bella

Oficialmente, a organização diz ter gasto 6,5 bilhões de dólares na construção de oito estádios e centros de treinamento. Juntando todas as obras de infraestrutura, que incluem a implantação, do zero, de uma cidade para 200 000 habitantes — Lusail, onde antes havia apenas dunas e agora receberá uma final de Copa —, estima-se que o evento custará 200 bilhões de dólares. A nova linha de metrô com 37 estações levará todos os torcedores aos estádios. O modelo compacto da Copa propiciará um fato inédito: será possível assistir a mais de um jogo por dia das arquibancadas.

Até aí, tudo certo, não fosse um tenebroso contexto. O Catar sofre rejeição internacional devido ao histórico de infração dos direitos humanos, especialmente sobre as condições de trabalho de seus mais de 24 000 funcionários. A Anistia Internacional divulgou um relatório acusando a Fifa, seus patrocinadores e as construtoras responsáveis de exploração de imigrantes. Outro problema diz respeito ao fato de a homossexualidade ser um crime previsto por lei no país islâmico.

Nasser Al-Khater, presidente do comitê organizador, garantiu que a comunidade LGBTQIA+ será bem-vinda, mas deve se adequar aos costumes locais. “Eles poderão fazer o que qualquer outro ser humano faria. As demonstrações de afeto são desaprovadas e isso se aplica a todos os torcedores”, disse à emissora CNN, sem especificar qual seria o limite para os gestos de amor. “O Catar e seus vizinhos são muito conservadores e pedimos aos visitantes que nos respeitem. Temos certeza de que o farão, assim como respeitamos as diferentes culturas.” Suas declarações eram uma resposta a Josh Cavallo, atleta australiano gay que revelou ter receio de ir ao Catar.

A Copa é importante mecanismo de sportwashing, termo que define o uso do esporte como forma de melhorar a imagem de um país. O mesmo ocorre com o Paris Saint-Germain, clube mediano da França e transformado em potência ao ser adquirido em 2011 pela Qatar Sports Investment, subsidiária do fundo de riqueza soberano do emirado. De certa forma, os gols de Neymar, Messi e Mbappé ajudam a limpar a barra do Catar com o Ocidente.

Há quem ouse peitar os poderosos, como os grupos de ativistas com cartazes em eventos da Fifa. Outros são mais assertivos. A seleção da Dinamarca, já classificada para o torneio, anunciou um boicote comercial ao campeonato. A equipe não vai expor nenhum patrocínio e, no lugar, estampará mensagens humanitárias.

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