Concorrência alta e contextos diferentes: entenda o que afasta Raphael Veiga da Seleção Brasileira


Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a falta de oportunidades que o camisa 23 do Palmeiras nas últimas convocações de Tite no escrete canarinho

Antes de qualquer coisa, é preciso deixar bem claro que não se quer fazer a defesa de nenhum dos lados na questão colocada aqui. É verdade que Raphael Veiga é um dos melhores jogadores brasileiros em atividade no país (talvez junto com Hulk e Guilherme Arana, ambos do Atlético-MG) e seu nome passou a ser um dos mais ventilados pela imprensa esportiva sempre que o assunto é a Seleção Brasileira. Este colunista tem apenas a intenção de tentar compreender o que se passa na cabeça de Tite com relação às ausências do camisa 23 do Palmeiras das últimas convocações para as últimas partidas do escrete canarinho. A questão aqui não é responder se Raphael Veiga merece ou não merece espaço com Tite numa possível lista para a Copa do Mundo, mas entender o contexto que o afasta da Seleção Brasileira (pelo menos nesse primeiro momento).

A grande virtude de Raphael Veiga no Palmeiras comandado por Abel Ferreira é a regularidade. É o principal organizador de jogadas e quem dá a dinâmica que o Verdão bicampeão da Copa Libertadores da América e campeão da Recopa Sul-Americana teve nas partidas contra Flamengo, Athletico Paranaense e várias outras equipes nos últimos meses. Pode distribuir passes no terço final, aparecer na chamada “Zona 14” para finalizar a gol ou ainda abrir o campo pelo lado direito para cortar para dentro e usar o pé esquerdo calibrado nos cruzamentos para a área. Contra Santos e São Paulo (pela edição de 2022 do Paulistão), Raphael Veiga foi um “camisa 10” de ofício. Contra o Chelsea (na decisão do Mundial de Clubes), foi mais um volante fechando a entrada da área palmeirense. É o tipo de jogador que exerce mais uma função em campo com facilidade.

É público e notório que o nome de Raphael Veiga já faz parte de grande parte das “listas alternativas” de convocados para a Seleção Brasileira não é de hoje. Ao mesmo tempo, as críticas dirigidas para Tite por conta da ausência do camisa 23 do Palmeiras das últimas convocações só aumentam (e em alguns casos extrapolam os limites do respeito como acontece com Abel Ferreira). Para começar, é muito difícil não levar o contexto do nosso futebol em consideração nessa análise. Isso porque o nível técnico da nossa liga acaba sim fazendo a diferença na escolha deste ou daquele atleta. E Tite não está errado em dar preferência a quem está acostumado à intensidade de uma Premier League, de um Campeonato Italiano ou de um Campeonato Espanhol. Isso faz muita diferença quando o assunto é Seleção Brasileira e seu aproveitamento no elenco.

Por outro lado, Raphael Veiga é o tipo de jogador que parece se adaptar bem a diferentes contextos (característica que ficou ainda mais marcante depois que Abel Ferreira chegou ao Palmeiras). Apesar de ser o camisa 23 da equipe, joga praticamente como um “10” atrás de Dudu, Rony e Gustavo Scarpa (ou Wesley). A formação que sai para a imprensa antes de cada partida do Verdão indica um 4-2-3-1, mas Raphael Veiga já mostrou adaptação rápida a todas as variações que o treinador português implementou no Palmeiras. Até mesmo num 5-3-2 bem mais cauteloso e pragmático com Piquerez mais preso pelo lado esquerdo e o camisa 23 fechando seu setor quase como um volante junto de Danilo e Zé Rafael.

A vitória sobre o São Paulo, por exemplo, nos mostrou um Raphael Veiga mais adiantado e muito participativo na marcação e no bloqueio das linhas de passe. Quando olhamos para contextos diferentes (como a final do Mundial de Clubes da FIFA contra o Chelsea), vemos o camisa 23 jogando um pouco mais recuado, fechando seu setor, participando da marcação e da transição para o ataque em altíssima velocidade. Seja com passes longos ou explorando as entrelinhas dos adversários. É essa adaptação rápida que faz com que ele seja um dos melhores jogadores do continente com sobras. As últimas atuações de Raphael Veiga falam por si só.

Raphael Veiga foi praticamente um “camisa 10” de ofício na vitória sobre o São Paulo pelo Campeonato Paulista. É ele quem dá o primeiro combate e quem aparece entre as linhas adversárias para acionar os companheiros de ataque. Foto: Reprodução / YouTube / Paulistão

E como todo “camisa 10” que se preze, Raphael Veiga tem amplo domínio da chamada “Zona 14” do campo, aquela que fica na frente da área adversária. Mesmo abrindo o jogo pelo lado do campo (principalmente o direito), o meio-campista do Palmeiras aparece com frequência nesse setor para as finalizações a gol ou para deixar os companheiros de time em condições de balançar as redes. Por outro lado, apesar da já comprovada qualidade, sua movimentação no terço final lembra muito a de vários outros jogadores utilizados por Tite na Seleção Brasileira. Nesse ponto, é bem difícil não notar que a concorrência é muito grande no elenco. Ainda mais sabendo que Neymar, Philippe Coutinho, Lucas Paquetá e outros jogadores utilizados no escrete canarinho atuam na mesma faixa de campo. É aí que o contexto do futebol brasileiro fala muito mais alto.

A chamada “Zona 14” é um dos setores do campo mais explorados por Raphael Veiga nos seus jogos pelo Palmeiras. Rony, Wesley e Dudu dão profundidade e abrem o espaço que o camisa 23 precisa para finalizar a gol. Foto: Reprodução / YouTube / CONMEBOL Libertadores

Mas não é difícil imaginar um lugar para Raphael Veiga na Seleção Brasileira quando observamos as últimas formações que Tite utilizou na sua equipe. Principalmente no 4-2-4 da vitória sobre o Uruguai (a melhor atuação coletiva do escrete canarinho nesse atual ciclo na opinião deste que escreve). Em tese, é Neymar quem ocupa essa “Zona 14” no time. Este se reveza com Lucas Paquetá (que vem jogando mais aberto pelo lado esquerdo) ou com Raphinha (quando este sai da direita e busca o centro do campo). Por uma questão de características e estilo de jogo, Raphael Veiga teria a concorrência mais direta de Philippe Coutinho, nome da confiança de Tite e que vem recuperando a sua melhor forma física no exigente futebol inglês. A criatividade, a visão de jogo e a facilidade de adaptação a diferentes contextos são pontos em comum dos dois.

O setor onde Raphael Veiga se sente mais confortável é aquele onde a concorrência é mais acirrada na Seleção Brasileira. Neymar e Lucas Paquetá já exerceram essa função, mas é Philippe Coutinho quem vem ganhando pontos com Tite. Foto: Reprodução / YouTube / CONMEBOL

É possível que Tite acabe levando pelo menos três jogadores que atuam no Brasil para a Copa do Mundo. O próprio treinador da Seleção Brasileira afirmou que Raphael Veiga está no radar da comissão técnica e o fato da FIFA ter liberado a convocação de até 26 jogadores por equipe no Mundial do Catar pode facilitar esse processo para ele, Everton Ribeiro, Gabigol, Hulk e outros nomes citados por torcedores e jornalistas nesses últimos dias. É verdade também que Tite tem seus homens de confiança e que isso é perfeitamente natural num contexto de selecionado nacional. O tempo para treinamentos é muito mais curto e os encontros são mais esporádicos do que num clube. Ainda que alguns nomes escolhidos pelo treinador sejam bastante contestáveis, o nível de intensidade mais baixo do futebol sul-americano pode fazer diferença se Raphael Veiga for realmente utilizado na equipe.

Mesmo assim, este que escreve daria pelo menos uma chance para que Raphael Veiga possa mostrar seu talento e provar que pode fazer parte do elenco que vai disputar a Copa do Mundo no final do ano (mesmo jogando no futebol brasileiro). Vencer a forte concorrência no setor onde rende mais é a grande missão do camisa 23 do Palmeiras nesse primeiro momento. Suas últimas atuações e sua regularidade podem sim fazer muito bem para a Seleção Brasileira.

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