Robert Pattinson abandona vampirismo em ‘Batman’, mas segue atrás de sangue


SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – As lentes de um binóculo guiam o olhar do espectador para dentro de um apartamento luxuoso. Do prédio da frente, seu dono movimenta nervosamente o objeto enquanto registra um garoto fincar uma espada no peito de um homem -mas ela é de plástico e é noite de Halloween. O pequeno sai e o voyeur consegue, enfim, focalizar o sujeito alto e de roupas elegantes.

O que se segue é um assassinato a sangue frio, que não economiza na brutalidade, com direito a amputações sem sedativo e manchas no carpete. Parece a introdução de um filme de crime e investigação, mas estamos diante da mais nova adaptação dos quadrinhos de heróis a aterrissar nos cinemas, “Batman”.

Dirigido por Matt Reeves, que já flertou com o macabro em “Cloverfield: Monstro” e “Deixe-me Entrar”, o longa toma um rumo bem diferente do que nos acostumamos a ver no subgênero heroico, com os alívios cômicos constantes da Marvel ou a bagunça nonsense de outras adaptações da própria DC.

“Eu não mergulhei nesse universo e li todos os quadrinhos, mas, em termos de tom, eu queria algo que fosse fundamentado na realidade, de certa forma”, afirma o cineasta em conversa com a imprensa. Ele buscou traduzir o clima de HQs como “Ego” e “O Longo Dia das Bruxas”, que considerou mais cinematográficas e que o fizeram lembrar do cinema americano da década de 1970.

Dele, tomou emprestado a desilusão de “Taxi Driver”, os escândalos políticos de “Todos os Homens do Presidente” e a perseguição narcótica de “Operação França”. “São filmes que inspiraram essa nova adaptação e que também me inspiraram a querer fazer cinema, para começo de conversa”, afirma.

O resultado é um “Batman” que acompanha os anos de formação do Homem-Morcego, quando ele era mais um vigilante atuando nas sombras do que um herói celebrado nas ruas. Na trama, ele trabalha com o Comissário Gordon depois que o prefeito de Gotham City, o homem observado pelas lentes do começo desta reportagem, é morto. Quando entra na cena do crime, o protagonista lembra Sherlock Holmes, com as deduções lógicas e atenção aos detalhes inexistentes nos policiais da sala.

A partir daí, várias autoridades corruptas da cidade que faz as vezes de Nova York passam a ser torturadas e assassinadas e cabe ao Homem-Morcego, alter ego do milionário Bruce Wayne, descobrir qual é o ponto de conexão entre elas. No caminho, ele cruza com Selina Kyle, a Mulher-Gato, que, mesmo que por motivos diferentes, também parece estar na cola de vilões como o excêntrico Pinguim, o mafioso Carmine Falcone e o engenhoso Charada.

Quando vemos esse novo Homem-Morcego sem a máscara e a capa pela primeira vez, parecemos estar diante de um garoto emo dos anos 2000. De franjinha lambida e escura caída sobre os olhos, estes cobertos por tinta preta, Robert Pattinson criou um Batman completamente assombrado por seu passado trágico, menos experiente e resolvido que seus antecessores no papel.

“Estar nos anos de juventude do personagem me deu um tipo de liberdade”, conta Pattinson. “Eu amei todos os tipos de fragilidades que ele tem. Ele sempre foi um personagem falível, porque é só um homem numa armadura, mas esse filme realmente abraçou esse lado.”

Como é de praxe nos filmes do herói, os fãs se dividiram quando o nome de Pattinson foi anunciado na produção. Mas agora a transformação está completa -o adolescente-morcego, que fez fama como o vampiro galã da saga “Crepúsculo”, virou Homem-Morcego e continua atrás de sangue, embora dessa vez não seja ele o predador.

Batman é um fenômeno parecido com o que a Marvel, ou mais precisamente a Sony, detentora dos direitos autorais, tem nas mãos com o Homem-Aranha. Ambos são heróis de popularidade infindável, que neste século foram levados às telonas por três atores diferentes -Tom Holland, Andrew Garfield e Tobey Maguire, no caso do aracnídeo, e Pattinson, Ben Affleck e Christian Bale, no do morcegão.

Em todas essas versões, os heróis fazem sucesso, apesar de alguns poucos anos separarem uma interpretação da outra e suscitarem debates sobre a tolerância do público em ver os personagens com tanta frequência. Mas a bilheteria de “Homem-Aranha: Sem Volta para Casa”, lançado no fim do ano passado, provou que há espaço para usar e abusar do personagem -e tudo indica que “Batman” vai seguir esse caminho.

No caso do Homem-Morcego, não podemos esquecer outro célebre alter ego do herói, Michael Keaton, que nos anos 1980 ajudou Tim Burton a montar sua Gotham City neogótica e expressionista, e um nem tão querido -George Clooney, no “Batman e Robin” de 1997.

Diferentemente do Homem-Aranha, constantemente levado às telas mais por questões contratuais, o Batman talvez seja retratado com tanta frequência porque permite a seus diretores abordagens mais autorais, como fez Burton e agora faz Matt Reeves, aproximando a maneira de narrar o novo filme daquela usada em “Cloverfield”.

“Quando eu faço filmes, eu gosto de criar uma relação empática entre o público e os personagens, para que ele possa ficar imerso na história. Então o som e a música, por exemplo, têm um papel muito importante, porque a minha intenção foi pôr as pessoas no lugar do Batman, como num noir clássico. Se ele é nocauteado, você é nocauteado junto”, diz o diretor.

Com sua investigação policial, “Batman” bebe da mesma fonte anárquica de “Coringa”, lançado há três anos, pondo como o grande vilão da trama o resultado das frustrações causadas por um sistema que deixa a população desamparada e os ricos mais ricos, regido por uma classe política e uma elite corruptas e insensíveis.

Tanto que um dos grandes vilões do filme não usa máscara, é um mafioso ganancioso que não precisa se esconder, porque é abraçado pelos poderosos, enquanto os outros dois tampouco recorrem a figurinos teatrais. O Charada de Paul Dano, por exemplo, usa fóruns na internet e redes sociais para capitalizar o ódio do cidadão comum, enquanto espalha pistas inteligentes para alimentar o que acredita ser uma conexão íntima com Batman, vigilante que não seria tão diferente assim de seu antagonista.

Da mesma forma, a Mulher-Gato de Zoë Kravitz se aproxima de Batman porque ambos se sentem sozinhos desde a infância, são órfãos e se consideram, eles próprios, a “vingança”, como diz o Homem-Morcego no início do filme -eles têm opiniões diferentes sobre o que é ser isso, o que não impede uma tensão sexual latente entre os dois.

Com três horas de duração, sobra tempo para “Batman” flertar com diversos gêneros, do romance com a Mulher-Gato ao drama do menino órfão, da ação dos vários tiroteios à ficção científica dos apetrechos tecnológicos, do suspense dos assassinatos sempre à espreita ao policial, instigado pela rede de crime e tráfico que tomou conta de Gotham.

Mas o principal do filme, acredita Kravitz, são justamente os conflitos e inseguranças mais íntimos do Batman. “Ele se sentiu sozinho a vida inteira e aí quando encontra a minha personagem, há uma conexão. Esse é o coração da história.”

BATMAN

Quando: Estreia nesta quinta (3), nos cinemas

Classificação: 14 anos

Elenco: Robert Pattinson, Zoë Kravitz e Paul Dano

Produção: EUA, 2022

Direção: Matt Reeves


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