Capacidade de adaptação, alta velocidade e estrutura “transformer”: as ideias táticas de Vítor Pereira


Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa os conceitos do treinador português e explica como eles podem ser aplicados no Corinthians

Vítor Pereira chega ao Corinthians cercado de muita expectativa por parte da torcida e com algumas tarefas bem urgentes. A principal delas talvez seja encontrar o encaixe de um elenco que não tem tantas opções assim na proteção da zaga e que conta com vários jogadores que atuam mais ou menos na mesma posição no meio-campo. O português de 53 anos faz parte do grupo de treinadores que valoriza o estudo e mostrou mais de uma vez ao longo de quase vinte anos de carreira que sabe se adaptar às características do elenco que tem à disposição. No entanto, mesmo sendo muito flexível no que se refere a sistemas de jogo, Vítor Pereira não abre mão da sua “marca” nos times que dirigiu: jogo rápido na direção do gol, marcação em bloco médio e algo que o próprio chama de estrutura “transformer”. Aplicar todos esses conhecimentos no Corinthians é, sem qualquer sombra de dúvida, um dos maiores desafios da sua carreira.

O novo técnico do Corinthians é adepto da chamada periodização tática. Sendo bem objetivo, podemos dizer que essa metodologia de treinamentos usa como base o princípio de que os jogadores precisam sempre treinar situações de jogo com a bola sem que a parte física seja separada da técnica e do trabalho tático. Tudo está interligado. E não é por acaso que os times treinados por Vítor Pereira eram extremamente intensos e já apresentam a “cara” do treinador logo nos primeiros jogos. Ao mesmo tempo, é um profissional extremamente estudioso e também é conhecido pela personalidade forte. Não foram poucas as vezes em que ele não teve medo de colocar um “medalhão” no banco de reservas. O que importa é o time como um todo.

Ele passou por todas as etapas do curso de formação da UEFA e iniciou sua carreira como treinador no time sub-15 do Padroense em 2002. Em 2011, assumiu o comando do Porto com a transferência de André Villas-Boas para o Chelsea e conquistou dois campeonatos nacionais (2011/12 e 2012/13) e duas Supertaças de Portugal (2011 e 2012). Ele também é lembrado por ter deixado Jorge Jesus de joelhos (literalmente) no dia 11 de maio de 2013, quando sua equipe venceu o Benfica por 2 a 1 de virada com um gol marcado por Kelvin (AQUELE MESMO) aos 46 minutos do segundo tempo dentro do Estádio do Dragão. O Porto era o vice-líder do Campeonato Português e ultrapassou o time de Jorge Jesus na classificação geral.

A adaptação e a flexibilidade talvez sejam as principais características de Vítor Pereira e isso pode ser percebido nas equipes que treinou ao longo das últimas duas décadas. Há traços em comum em todas elas. A começar pela saída de bola. Os goleiros costumam participar bastante da construção das jogadas e a “saída de três” é muito utilizada. Seja num esquema com três zagueiros ou com um dos jogadores de meio-campo voltando para a última linha. Na sua segunda passagem pelo Fenerbahçe, Vítor Pereira usou o brasileiro Luiz Gustavo no 3-4-3 para abrir o campo com os dois laterais e deixar trio ofensivo mais próximo da área. Mas é preciso deixar claro que essa estrutura não é fixa. Um dos laterais pode se aproximar por dentro e oferecer apoio para um jogo mais curto. O objetivo é um só: abrir espaços na defesa e colocar muita velocidade na transição para o ataque.

O brasileiro Luiz Gustavo jogou como zagueiro na passagem de Vítor Pereira pelo Fenerbahçe no segundo semestre de 2021. Saída sustentada para abrir o campo e ganhar espaços com a movimentação do trio ofensivo. Foto: Reprodução / YouTube / Fenerbahçe SK

A preferência pelo 4-3-3 ficou bem clara na sua passagem pelo Porto. Ao longo do tempo, Vítor Pereira também mostrou apreço pelo 3-4-3 (formação bastante utilizada no 1860 München, em alguns jogos pelo Shanghai SIPG e no próprio Fenerbahçe). Essa é a tal “estrutura transformer” que o treinador português destacou em entrevista ao concedida ao portal “Mais Futebol” (de Portugal) em abril do ano passado: “Na China, jogávamos em 3-4-3, por vezes em 4-3-3. Apelidei esta nova estrutura de estrutura ‘transformer’. O que se está a perceber é que há uma tendência para vivermos num futebol com as linhas mais coordenadas e os espaços mais reduzidos. Perante isso temos de reinventar-nos do ponto de vista ofensivo. Se não conseguirmos desbloquear determinados comportamentos defensivos, então temos de ir à procura de soluções, de nuances novas. Essas estruturas de largura total dão-nos a possibilidade de ter um trunfo estratégico.

A busca pelo espaço e as formas de desestabilizar defesas bem organizadas é uma das obsessões de Vítor Pereira. Uma coisa que não era vista nas suas equipes eram passes para o lado e um jogo mais cadenciado. A ordem é jogar para frente, aproveitar os erros do seu adversário e pisar logo na área para balançar as redes. Sempre que um jogador recebe a bola na intermediária ofensiva, os demais se posicionavam de modo a atacar esse espaço às costas das últimas linhas. Sempre para a frente. Nunca para o lado.

Uma das marcas das equipes de Vítor Pereira era o jogo direto. Quase não há passes para os lados e o estilo mais cadenciado era desencorajado. O objetivo é atacar o espaço às costas do adversário, pisar na área e marcar gols. Foto: Reprodução / YouTube / Fenerbahçe SK

O estilo de Vítor Pereira é tão direto que vários dos gols marcados pelas suas equipes nasceram de reposições rápidas dos goleiros. É por isso que a participação deles na construção das jogadas é tão importante para o novo treinador do Corinthians. Atacantes buscando os espaços atrás da última linha adversária e aproveitar a desorganização do adversário na transição deste para a defesa é uma das marcas registradas dos seus times. Vítor Pereira defende a criação de dinâmicas que permitam equilibrar movimentos e espaços em função do seu oponente. No Shanghai SIPG (onde foi treinador de Oscar e Hulk) essas dinâmicas poderiam ser facilmente percebidas desde a saída de bola. E a maneira como a equipe chinesa se organizava mostra muito bem que o objetivo era explorar ao máximo a desorganização do seu adversário. Saída rápida, velocidade na transição e bola na rede.

Seja no 4-3-3 (caso do Shanghai SIPG no frame acima) ou no 3-4-3, o objetivo é chegar na área adversária com menos toques possível. Tudo em alta velocidade e com a participação dos goleiros nessas transições para o ataque. Foto: Reprodução / YouTube / The AFC Hub

Além de ser bastante flexível quando o assunto é esquema tático, Vítor Pereira prioriza a compactação das suas linhas quando sua equipe é atacada. No Shanghai SIPG, por exemplo, o time poderia jogar num 4-3-3, mas se fechava com duas linhas na frente da área. No Fenerbahçe, os dois alas recuavam e formavam uma linha de cinco com os pontas ajudando dos volantes na contenção dos espaços. Mas é possível notar alguns pontos em comum. Por exemplo, ao invés da marcação forte e das perseguições no campo adversário, suas equipes costumam marcar em bloco médio. Nem tão à frente para abrir espaços e nem tão atrás para percorrer um grande pedaço do campo. Ao mesmo tempo, laterais e zagueiros estão sempre alinhados e prontos para cobrir os espaços. Também é possível notar perseguições curtas no setor onde está a bola. Tudo para retomar a posse e acionar o ataque em alta velocidade conforme descrito acima.

Seja com quatro ou cinco jogadores, as equipes de Vítor Pereira marcam em bloco médio sempre com muita compactação e prontas para acionar os contra-ataques. As perseguições (mais curtas) só ocorrem no setor onde está a bola. Foto: Reprodução / YouTube / The AFC Hub

Certo é que Vítor Pereira tem um grande desafio pela frente. De volta à Libertadores, a expectativa em torno do Corinthians após o anúncio da sua contratação (ainda que no “hype” do sucesso de Jorge Jesus e Abel Ferreira no Brasil) é enorme. Mesmo sendo um treinador que sabe se adaptar a diferentes contextos, o calendário insano do futebol brasileiro é algo que ele ainda não enfrentou nas suas décadas de carreira. Ao mesmo tempo, este que escreve se pergunta como será o encaixe do “quinteto” formado por Paulinho, Renato Augusto, Giuliano, Roger Guedes e Willian dentro do seu modelo de jogo. Lembrem-se de que um dos grandes problemas do Corinthians é a reposição defensiva e a ausência de um jogador que consiga exercer a função de “número cinco” na frete da zaga. Cantillo pode ser esse jogador se recuperar a forma. Mas não será surpresa de um dos “medalhões” for esquentar o banco de reservas.

Como se sabe muito bem, Vítor Pereira vai precisar de tempo e paciência para implementar seus conceitos num elenco talentoso, porém levemente desequilibrado em alguns setores. A falta de um centroavante de confiança também é mais um obstáculo para o treinador português. Por mais que suas equipes tenham conseguido assimilar suas ideias rapidamente, o contexto que será encontrado é muito diferente. Resta saber como diretoria e torcida vão reagir no caso dos resultados não aparecerem num primeiro momento.

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