Seleção Feminina melhora o sistema defensivo, mas ainda precisa de uma organizadora e uma finalizadora


Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa o empate sem gols contra a Finlândia e alguns dos problemas da equipe de Pia Sundhage

A Seleção Feminina encerrou sua participação no Torneio Internacional da França com dois empates e uma derrota em três partidas. Dois gols marcados (ambos em penalidades convertidas por Marta) e três sofridos. Levando-se em consideração que a intenção inicial de Pia Sundhage era testar sua equipe contra adversários mais fortes e qualificados, o saldo foi sim positivo. O sistema defensivo apresentou uma melhora significativa (menções honrosas para Tainara, Lorena, Rafaelle e Antônia) e o escrete canarinho como um todo esteve sempre muito bem organizado com e sem a bola. Por outro lado, a ausência de uma organizadora de jogadas e de uma finalizadora foram bastante sentidas. Principalmente depois do caminhão de gols perdidos no empate sem gols com a Finlândia, em partida disputada nesta terça-feira (22), na última rodada do Torneio Internacional da França.

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Quem acompanha o espaço aqui no TORCEDORES.COM já leu todo tipo de crítica e questionamento em cima do trabalho de Pia Sundhage. Mas a treinadora sueca está coberta de razão quando fala sobre a necessidade urgente de se melhorar o condicionamento físico das jogadoras da Seleção Feminina. Com esse quesito fortalecido, é possível apresentar um futebol muito mais competitivo, ter mais intensidade, mais acerto nas tomadas de decisão e, por consequência, vencer jogos grandes. Não se trata apenas de correr mais do que seu adversário ou aguentar as pancadas e trancos durante os noventa minutos. Trata-se de entender que o velho e rude esporte bretão evoluiu demais nas últimas décadas.

É verdade sim que o Brasil criou várias e várias chances de gol contra a Finlândia. No entanto, por mais que a equipe estivesse organizada e com a sua defesa bem postada, dois pontos chamaram a atenção deste que escreve. O primeiro está nas finalizações a gol e na conclusão das jogadas. Pia Sundhage manteve seu 4-4-2/4-2-4 costumeiro na Seleção Feminina e fez poucas mudanças no time que foi derrotado pela França. Kerolin e Ary Borges exploravam bem os lados do campo, Marta recuava para arrastar a marcação e Debinha circulava entre as linhas. Embora Letícia Santos aparecesse bastante no ataque, Tamires parecia um pouco mais presa no seu setor. Talvez com medo de abrir espaços às suas costas.

Angelina recebia na intermediária com liberdade e Letícia Santos atacava o corredor aberto por Kerolin. Marta permanecia um pouco mais recuada e Debinha tentava abrir espaços na frente. A Seleção Feminina explorou bastante o lado direito no primeiro tempo. Foto: Reprodução / SPORTV

O problema é que a característica das jogadoras que estavam em campo faziam com que a Seleção Feminina adotasse uma postura mais vertical. Contra Holanda e França, eu e você vimos a bola bater na frente e voltar para a defesa várias vezes. Estava mais do que claro que a ausência de uma jogadora que cadenciasse mais o jogo no meio-campo fazia com que a equipe de Pia Sundhage ficasse nesse vai e vem frenético e fosse gastando as energias. Kerolin e Ary Borges eram as válvulas de escape do escrete brasileiro, mas se ressentiam muito dessa organizadora de jogadas. Ao mesmo tempo, Debinha e Marta funcionaram muito pouco como dupla de ataque. A equipe sentia a falta de quem desse profundidade e que quem aparecesse para concluir as tramas ofensivas. Não se trata apenas de uma finalizadora, mas de alguém que pudesse arrastar a defesa finlandesa para trás e abrir espaços.

Pia Sundhage fez poucas mudanças na equipe que entrou em campo nesta terça-feira (22) e manteve eu 4-4-2/4-2-4 costumeiro. Com Marta e Debinha no comando de ataque, a Seleção Feminina se viu refém das jogadas de Ary Borges e Kerolin pelos lados do campo. Foto: Reprodução / SPORTV

O desgaste de Kerolin, Rafaelle e Ary Borges deixou a Seleção Feminina um tanto quanto refém das bolas longas na direção do ataque. Pia Sundhage ainda ensaiou um 4-3-3 com cara de 4-4-2 a partir da entrada de Luana e Ana Vitória no segundo tempo. A primeira foi jogar na sua posição de origem ao lado de Angelina. Já a segunda era uma “volante/meia” pela esquerda. Sem a bola, ela fechava o lado do campo e auxiliava Tamires na marcação do escrete finlandês. Nos momentos ofensivos, ela vinha jogar um pouco mais por dentro e abria o corredor para a subida da camisa 6 ao ataque. Do outro lado, Geyse (muito mais atacante do que meio-campo) e chegou a ensaiar uma boa dupla com Letícia Santos.

Mas faltava organização na hora de atacar. A postura excessivamente vertical da Seleção Feminina e a falta de quem desse mais cadência prejudicou o escrete brasileiro em todos os sentidos. Não havia como dosar o fôlego e usá-lo apenas nos momentos certos. Com isso, todas as tomadas de decisão acabaram prejudicadas. Erros que parecem até bobos para quem está assistindo do sofá da sala, mas que fazem muito sentido e são plenamente explicáveis quando se lembra de Pia Sundhage batendo na tecla do condicionamento físico. O Brasil conseguia criar espaços das mais diversas maneiras possíveis, mas pecava na hora de concluir as jogadas. De nada adiantou liberar Tamires para o ataque ou apostar na velocidade de Ludmila.

Ana Vitória fechava o lado esquerdo sem a bola e abria o corredor esquerdo para Tamires e Debinha quando a Seleção Brasileira atacava. O empate sem gols com a Finlândia escancarou a necessidade de uma organizadora e de uma finalizadora na equipe. Foto: Reprodução / SPORTV

Os números da partida desta terça-feira (22) comprovam a superioridade da Seleção Feminina diante de uma Finlândia que estava mais preocupada em não perder ou perder de pouco. Um dado chama a atenção deste que escreve: foram 14 finalizações de DENTRO DA ÁREA. Isso mostra que a equipe de Pia Sundhage conseguia levar a bola para dentro da área e explorar os espaços que apereciam nas primeiras linhas de pressão do seu adversário. O problema todo estava na hora de concluir a jogada de ataque. Ao mesmo tempo, é preciso lembrar mais uma vez da questão do condicionamento físico. Sem a tal organizadora do meio-campo, aquela que dá a pausa para guardar fôlego, o time brasileiro segue num ritmo alucinante e bastante vertical sem se preocupar muito com isso. O volume de jogo aparece, mas todos os fatores levantados anteriormente ajudam a explicar (em parte) os erros nas tomadas de decisão.

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É possível sim afirmar que temos uma Seleção Feminina muito mais organizada e fortalecida no seu sistema defensivo. Falta a subida de patamar com as vitórias e atuações seguras contra adversários do TOP 10 da FIFA. Mas essa tarefa fica complicadíssima quando se analisa o contexto. O Brasil não tem hoje uma jogadora pronta para ditar o ritmo do meio-campo e cadenciar o jogo quando necessário. Há quem mencione Gabi Zanotti, mas a sua convocação colocaria em xeque todo o processo de renovação da equipe visando outros ciclos. Além do mais, o nível exigido em partidas de Copa do Mundo e Olimpíadas é muito mais alto do que aquele que vemos no continente sul-americano. E sobre a tal finalizadora, a lesão de Nycole Raysla prejudicou demais o planejamento de Pia Sundhage. Bia Zaneratto pode ser essa jogadora. Mas é outra que precisa subir de nível. Como toda a equipe brasileira.

Na prática, a Seleção Feminina paga pelos anos em que a CBF agiu de maneira desleixada com a equipe e com a modalidade no país. Quase não tínhamos categorias de base e nossas atletas subiam sem estar prontas para os times de cima. Foi esse cenário que a treinadora sueca encontrou quando assumiu a equipe. Há como se discutir suas ideias e seus conceitos. Mas precisamos entender que o caminho para essa subida de patamar passa sim pela renovação e pelo fortalecimento do condicionamento físico. Exatamente como Pia Sundhage defende.

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