Os valores milionários das obras dos artistas modernistas e o legado do movimento


Em 2020, a pintura “A Caipirinha”, de Tarsila do Amaral, bateu o recorde de preço para uma obra vendida no Brasil, arrematada em um leilão por R$ 57,5 milhões. Não foi o primeiro recorde da artista. Seu “Abaporu”, hoje no Museu de Arte Latina de Buenos Aires e pertencente a uma coleção privada, não tem valor específico estimado, mas o seguro pago pela tela quando viajou a uma exposição em Nova York, em 2018, é de US$ 45 milhões, o que torna o quadro o mais caro da história da arte brasileira.

Anita Malfatti não fica atrás. Suas obras, como um retrato de Oswald de Andrade, nas últimas duas décadas têm ultrapassado a barreira dos milhões. Com Di Cavalcanti, não foi diferente: em 2019, o painel “Bumba Meu Boi” foi oferecido na feira SP-Arte por R$ 20 milhões.

Escultura do final dos anos 1930 de Victor Brecheret, Vestal Reclinada com Pássaro foi vendida em um leilão em 2016 por R$ 2,7 milhões, ultrapassando em mais de 200% o valor do lance inicial.

 

Os montantes mostram a importância que as obras dos principais artistas modernistas conquistaram ao longo das décadas no cenário da arte brasileira. Mas contam apenas parte da história.

Em 2018, Tarsila ganhou uma exposição individual no Museu de Arte Moderna, de Nova York. Obras de Anita Malfatti e Di Cavalcanti estão entre os destaques dos principais museus brasileiros, e já foram expostas em instituições como o Guggenheim de Nova York.

Anita e Di Cavalcanti são autores de algumas das obras expostas na Semana de Arte Moderna e Tarsila logo se tornaria central para o movimento. E, de lá para cá, tornaram-se fundamentais na lista de artistas cuja obra é importante para a compreensão da arte brasileira no século 20.

Lista que, fora das artes plásticas, inclui ainda escritores como Mário de Andrade e Oswald de Andrade ou então o compositor Heitor Villa-Lobos. Mas nem sempre foi assim. Seus trabalhos continuam a ser estudados – e novas descobertas têm sido feitas.

Contracultura

Di Cavalcanti, em 1965/ Wikimedia Commons

“É preciso fazer uma distinção. Na época da Semana, Tarsila ainda não era a artista que se revelaria anos depois. Di Cavalcanti, menos ainda, sua obra só vai se transformar quando ele vai a Paris mais tarde nos anos 1920, onde encontra um momento de ebulição. Interessante, portanto, é pensar também em como o trabalho desses artistas se desdobrou”, diz Valéria Piccoli, curadora-chefe da Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Para ela, a ideia de que a Semana foi um marco só começa a surgir a partir dos anos 1940. “O papel inovador desses artistas é algo que a historiografia demorou a consagrar. Nos anos 1960, por exemplo, Di Cavalcanti e Cândido Portinari, que já faz parte da segunda geração modernista, são vistos como retrógrados. Suas obras começam de fato a ecoar de maneira mais intensa com uma revisão que tem início nos anos 1970, quando Aracy Amaral começa a estudar e publicar sobre eles, em especial a Tarsila. É nesse momento também que movimentos de contracultura, como a Tropicália, passam a se valer de elementos da Antropofagia, dando visibilidade a esses modernistas.”

Milhares de notas e papeletas

A obra de Mário de Andrade entrou em domínio público em 2016 e desde então novas edições começaram a ser lançadas. “Mário foi de fato um homem do modernismo, um polímata, que trabalhou com diferentes linguagens artísticas buscando integrar conhecimentos”, diz Flavia Toni, professora do Instituto de Estudos Brasileiros, que guarda o acervo de mais de trinta mil itens do escritor.

“O universo da literatura, eu acredito que já foi bem explorado, há bastante coisa. Sua produção sobre música, no entanto, ainda guarda muito a se estudar”, acredita.

Uma das questões que torna o estudo da produção de Mário de Andrade difícil, segundo Toni, é a imensa quantidade de notas de trabalho que rascunhava em livros e em seus próprios textos.

“São milhares de papeis, papeletas, em que deixava comentários que são preciosos. Não acho que algo possa mudar radicalmente a nossa percepção sobre quem ele foi no que acreditava. Mas, por tudo isso, trata-se de uma obra que precisa ser estudada a partir de parâmetros próprios a ela”, afirma.

No ano passado, Toni coordenou o lançamento de uma nova edição do “Ensaio sobre Música Brasileira”, lançado pela primeira vez em 1928, no mesmo ano de “Macunaíma”. E, com base nos arquivos do escritor, foi possível, por meio de notas e marcações, restaurar o texto original, que havia sido cortado nas edições a partir dos anos 1960. Para a professora, trata-se do texto mais importante da musicologia brasileira no século 20.

Aproveite para ouvir o episódio “Rupturas e legados”, da série de podcasts da CNN sobre a Semana de Arte Moderna de 1922:

 

O livro traz registros de aboios, acalantos, cantigas de roda, danças, cantos religiosos e diversas outras peças de diferentes regiões do país, recolhidas em viagem pelo próprio autor ou recebidas de colaboradores com quem se correspondia.

“É um exercício impressionante do que vai se chamar etnomusicologia. E precisamos lembrar que a primeira viagem dele, entre 1927 e 1928, foi feita sem nenhum apoio oficial. Era Mário com papel e lápis na mão. Não havia ainda, como já se dava em outros países, a existência de instituições que se dedicavam a apoiar esse tipo de trabalho.”

Toni lembra que, com o tempo, Mário de Andrade vai participar da criação do Departamento de Cultura da cidade de São Paulo, em 1935, e do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1937. E vai se dedicar assim a criar uma estrutura que permitisse uma investigação sistemática da cultura nacional.

Esse envolvimento de Mário com políticas públicas é o tema de dois livros que serão lançados este ano pela editora Todavia. Neste mês, sai “Mário de Andrade Por ele Mesmo”, de Paulo Duarte, sobre sua gestão à frente do departamento; e, no segundo semestre, a correspondência trocada por ele com Rodrigo Melo Franco, diretor do SPHAN.

Ainda sobre Mário, será lançado este ano “Ainda Bebo no Copo dos Outros – Por uma Estética Modernista”, com textos do autor sobre a Semana de 22 e uma nova edição de “Mário de Andrade: Exílio no Rio”, em que Moacir Werneck de Castro relembra a passagem de Mário pelo Rio ente 1938 e 1941 (editora Autêntica).

Oswald de Andrade em 1.600 páginas

A obra de Oswald de Andrade também é tema de diversos lançamentos. Além de uma edição de seu “Diário Confessional” (Companhia das Letras), a Universidade de São Paulo está lançando, em dois volumes, “Obra Incompleta”, trabalho liderado por Jorge Schwartz, professor da Universidade de São Paulo, com a participação de diversos especialistas no modernismo, como Gênese Andrade e Maria Augusta Fonseca.

O projeto levou trinta e cinco anos para ser finalizado e traz toda a poesia do escritor, além de edições críticas de Serafim Ponte Grande e Memórias Sentimentais de João Miramar. São ao todo 1.600 páginas, nas quais estão ainda vinte ensaios sobre o Oswald, escritos por Antônio Cândido e Nicolau Sevcenko, entre outros, que participaram da idealização do volume ainda nos anos 1980.

“O título Obra Incompleta tem a ver com a própria natureza do trabalho de Oswald, que revisava constantemente seu trabalho e suas ideias”, explica Schwartz, para quem o volume pode ajudar na compreensão da personalidade e da obra do autor. “Uma coisa é o autor vivo, outra é sua dimensão histórica, que não para de crescer.”

Para Schwartz, especializado em literatura latino-americana, não há no continente nada parecido com a obra de Oswald. “A ideia da antropofagia acabou atingindo setores que ele jamais poderia ter imaginado. Não se limitou à literatura, tornou-se importante nos debates a respeito da história do país, das artes plásticas, da antropologia.”
Villa-Lobos além do fanfarrão

Outro nome fundamental da Semana, o compositor Heitor Villa-Lobos também passa por um processo de reavaliação das suas obras. O músico é tido como o mais importante autor da música de concerto brasileira no século 20.

Mas só recentemente suas sinfonias, por exemplo, ganharam novas edições, cotejadas com as partituras originais, pela Fundação Osesp e foram gravadas na íntegra pela orquestra. O mesmo vale para boa parte de sua produção de câmara, como os trios para piano, violino e violoncelo, que foram gravadas por Ricardo Castro, Claudio Cruz e Antonio Meneses em 2020 e lançadas pelo Selo Sesc, acompanhadas de uma nova edição das partituras.

Atualmente trabalhando em uma biografia de Villa-Lobos a ser lançada pela editora Todavia no segundo semestre deste ano, a jornalista e pesquisadora Camila Fresca acredita que apenas recentemente sua obra tem sido vista a partir de novos critérios.

“Para quem vê à distância, Villa-Lobos tem a figura de fanfarrão, é um homem predestinado, cujo sucesso estava escrito nas estrelas, que criava suas obras sem esforço”, diz. “Mas as pesquisas recentes em suas partituras têm mudado essa imagem. Não é verdade que ele escrevia uma obra e esquecia, partia para outra, como se página escrita fosse página virada. Ele escreve, arrisca, tenta, volta atrás, revisa obras antigas. É um compositor cioso, que reflete sobre o que faz. As pessoas começam a entender isso.”

Este conteúdo foi originalmente publicado em Os valores milionários das obras dos artistas modernistas e o legado do movimento no site CNN Brasil.


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