Neste Monte, você pode estar no Brasil, Guiana e Venezuela ao mesmo tempo


Este é o décimo texto do blog Deriva Continental, escrito por Nelson Joaquim Reis e Marcelo Eduardo Dantas, do Núcleo Norte da Sociedade Brasileira de Geologia.

Existe um lugar em que você pode estar em três países ao mesmo tempo: o pé direito na Venezuela, o esquerdo na Guiana e os braços no Brasil. Esse ponto fica a mais de 2.500 metros de altitude e está representado  por um marco de fronteira que assinala o “ponto tríplice” entre os países:

Situação do Monte Roraima no interior da bacia sedimentar do Supergrupo Roraima.Nelson Reis/Divulgação

Só que não é tão fácil chegar lá: o ponto tríplice fica no topo do Monte Roraima, cuja altitude máxima é de 2.734 metros e é considerado o sétimo ponto mais elevado do Brasil. O monte tem uma superfície plana, parecendo uma mesa gigante, chamada “tepuy” na linguagem indígena local. Ele ainda é ornado por escarpas (paredões verticais) que atingem mais de 500 metros de altura. 

O monte foi visitado pela primeira vez em 1595, quando uma expedição inglesa comandada por Sir Walter Raleigh atingiu a base do Monte Roraima. Mas foi só em 1884 que o botânico Everard Im Thurn alcançou o topo do monte pelo lado venezuelano.

Além de assinalar o limite entre os três países, o Monte também estabelece a transição entre a vegetação de savana e aquela de floresta tropical amazônica nas regiões vizinhas entre o Brasil, Venezuela e Guiana.

Marco BV-0 limite entre Brasil e Venezuela. Neste ponto também se insere o limite (tríplice) com a República Cooperativista da Guiana.Nelson Reis/Divulgação

Na Venezuela, o Parque Nacional Canaima contempla grande parte da região dos montes Roraima e Cuquenán em uma área de 30.000 km2, superior ao território do estado de Alagoas. No Brasil, o Parque Nacional Monte Roraima foi criado em 1989 e ocupa uma área de 116 mil hectares.

Vista dos montes Cuquenán e Roraima, este, com trecho da trilha que leva ao topoNelson Reis/Divulgação
Flanco sul do Monte Roraima e ponto de acesso ao topoNelson Reis/Divulgação

A história das rochas do Monte Roraima

O Monte Roraima testemunha uma antiga bacia sedimentar que acumulou quase três mil metros de sedimentos arenosos.  Os sedimentos se depositaram ao longo de centenas de milhões de anos. Todo o conjunto rochoso pertence é geologicamente reconhecido como pertencente ao “Supergrupo Roraima” ocupando grande área do Escudo das Guianas, a parte norte do Cráton Amazônico.

No Monte Roraima são abundantes as rochas areníticas maciças, de granulação fina a média e por vezes, ricas em seixos. As estruturas sedimentares nessas rochas registram processos deposicionais de antigos ambientes fluviais, eólicos, litorâneos e marinhos. Correspondem à Formação Matauí, a unidade sedimentar de topo do Supergrupo Roraima.

As rochas sedimentares do Supergrupo Roraima possuem perto de 2 bilhões de anos de idade. Naquela época, a vida na Terra era muito primitiva.  Rochas sedimentares praticamente isentas de deformação, como é o caso do Supergrupo Roraima, têm idades normalmente mais jovens e de períodos geológicos mais estáveis. Daí ter sido uma surpresa sua idade tão antiga, levando-a a ser considerada pela comunidade científica  como uma das formações sedimentares mais antigas do Planeta. 

A bacia Roraima passou por um lento processo de soerguimento ao longo da Era Cenozoica (a partir de 65 milhões de anos atrás), gerando platôs formados por rochas sedimentares. É lá que está situado o Monte Roraima, o mais elevado tepuy da região. Seu topo tem uma área de 31 km2 , que está a 2.734 metros acima do nível do mar. 

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O Monte Roraima é apenas um representante de algumas dezenas de formações geológicas isoladas e espalhadas pelo sudeste da Venezuela (a conhecida Gran Sabana), nordeste do estado de Roraima e sudoeste da Guiana. Os tepuys são remanescentes que, outrora, ocupavam um monolítico planalto elevado que recobria uma vasta extensão do Escudo das Guianas.

Os topos dos tepuys possuem uma morfologia única, além de ser um berço para espécies da fauna e flora de valor imensurável. Eles têm superfícies de relevo acidentado e com estruturas ruiniformes decorrentes de processos de dissolução nos arenitos. Isso confere uma paisagem enigmática aos tepuys, ainda mais quando cobertos por névoa.

Fauna, flora e minerais (cristais de quartzo).Nelson Reis/Divulgação

Acima de 2.500 metros existe uma antiga superfície de erosão, a qual é denominada de “Superfície Auyantepuy”. A erosão esculpiu interessantes formas de relevo nesta superfície, incluindo crateras semicirculares. Outros ciclos de aplainamento se seguiram à Auyantepuy ao longo da Era Mesozoica (250 a 66 milhões de anos atrás). 

Feições de relevo acima da cota de 2.500 metros: formas exóticas geradas por erosão diferencial em camadas de arenitos; crateras que interligam sumidouros e galerias subterrâneas que atingem até 70 metros abaixo da superfícieNelson Reis/Divulgação

Nessa altitude, blocos rochosos de diferentes tamanhos, normalmente isolados, registram um sistema interno de fraturamento vertical. Esses fraturamentos geram blocos que colapsam e tombam, expondo níveis areníticos inferiores mais ou menos resistentes, onde se inicia um novo ciclo de fraturamento e erosão.  Esse processo é idêntico àquele que levou à catastrófica queda de um bloco na região de Furnas, Minas Gerais, conduzindo à morte a muitos turistas. 

Perfil ideal de um tepuy ilustrando estágios de desenvolvimento de formas erosivas desde suas bordas, onde se verificam as etapas finais, até seu interior, onde se observam as etapas iniciais do processo: (a) arenitos finos com intercalações de siltitos; (b) arenitos grossos, bem estratificados (Formação Matauí); (c) arenitos arcoseanos com intercalações silto-argilosas e rochas vulcânicas piroclásticas (tufos e ignimbritos) e vulcanoclásticas alteradas (Formação Uaimapué).Nelson Reis/Divulgação

O legado literário, místico e científico do Monte Roraima

Talvez as imagens acima tenham te feito lembrar do romance literário “O Mundo Perdido” (em inglês, The Lost World) escrito por Sir Arthur Conan Doyle, que também criou o detetive Sherlock Holmes. A obra de ficção lançada em 1912 narra, dentre outros temas, uma expedição comandada pelo Professor Challenger ao platô do Monte Roraima, ainda o habitat de animais pré-históricos, como dinossauros. O relatório do botânico Everard Im Thurn pode ter inspirado o enredo do livro.

Não muito distante da obra de Doyle, o romancista Mário de Andrade trouxe em 1928 a história surreal de Macunaima. Na passagem da infância para a fase adulta em uma tribo amazônica, o protagonista se apaixona por Ci, a “Mãe do Mato”, e com ela tem um filho que morre ainda bebê. Desgostosa pela perda do filho, Ci sobe aos céus e se transforma em uma estrela, deixando para Macunaima um amuleto, o muiraquitã. A posterior perda do amuleto o deixa decepcionado e Macunaima também sobe aos céus.

Para os povos indígenas da região da savana, o Monte Roraima tem grande significado espiritual, sendo chamado de a “mãe de todas as águas” e a “casa de Macunaima”. Reza a lenda que próximo do Monte Roraima havia a “Árvore de Todos os Frutos”. Apenas Macunaíma teria autoridade para colher as frutas, mas a árvore teria sido derrubada por índios ambiciosos. Conta-se que até hoje o espírito de Macunaíma vive no Monte Roraima e chora pela morte da árvore.

A formação geológica ainda inspirou uma das animações mais famosas da Pixar: Up: Altas Aventuras, lançada em 2009. O palco do filme retrata os tepuys, agregando elementos do Monte Roraima com o Salto Angel de outro tepuy, uma das maiores cataratas da região da savana venezuelana. 

O Monte Roraima permanece como um grande atrativo ao turismo ecológico (trekking) e geocientífico. Ele só pode ser acessado via terrestre pelo território venezuelano. A parede leste, em território brasileiro, foi escalada apenas em 2010 por alpinistas brasileiros.

Muitos turistas visitam o Monte anualmente, tornando-se necessária a preservação do monumento natural no seu estado primitivo. Essa é a única forma de manter vivas as belas feições de erosão, os registros sedimentares indicativos de ambientes formados há milhões de anos e as espécies endêmicas ali existentes.

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