Seleção Feminina mostra boa consistência e nível de maturidade elevado no empate contra a Holanda


Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa as escolhas de Pia Sundhage para a estreia do Brasil no Torneio Internacional da França

É possível falar muitas coisas de Pia Sundhage. É possível não concordar com alguns de seus conceitos ou com suas escolhas para a Seleção Feminina. Mas está cada vez mais claro (pelo menos para este que escreve) que a treinadora sueca tem um plano muito bem embasado para a equipe. O empate contra a Holanda no Estádio Michel d’Ornano (na rodada de abertura do Torneio Internacional da França) deixou ótimas impressões diante do contexto geral. Lorena mostrou segurança debaixo das traves, Tainara conseguiu se sair bem na zaga, Fê Palermo não sentiu a estreia e Luana foi bem quando exigida. É verdade que a Seleção Feminina ainda precisa de ajustes em todos os setores. Mas o que se viu em Caen nesta quarta-feira (16) nos mostrou um time consistente e que atingiu um nível de maturidade muito grande. Uma ótima notícia sem dúvida.

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A partida contra a atual vice-campeã mundial já seria um grande teste por si só. Mas a simples presença da craque Miedema no comando de ataque do 4-4-2/4-2-3-1 do inglês Mark Parsons trazia uma preocupação a mais para Pia Sundhage e para a dupla de zaga escolhida para iniciar a partida. Além de ser uma das melhores jogadoras do mundo, a camisa nove da Laranja Mecânica exigiria demais de Tainara e Daiane nas coberturas e na leitura dessa movimentação do escrete holandês. O alvo estava nas costas da última linha. Sempre que a Holanda recuperava a posse, o meio-campo tentava acionar Miedema e Pelova puxando a marcação mais por dentro e Martens e Beerensteyn vindo por fora.

Pia Sundhage manteve o seu 4-4-2 tradicional na Seleção Feminina com alguns pequenos ajustes. Antônia e Fê Palermo subiam pouco ao ataque por conta da já mencionada movimentação ofensiva da Holanda e permitiam que Luana e Duda saíssem mais para o jogo. As duas volantes brasileiras saltavam da sua linha para a pressão em cima de Groenen e Spitse de maneira alternada, mas com uma certa frequência. E mais à frente, Debinha (uma das poucas que destoavam do bom jogo coletivo da Seleção Feminina) se comportava como uma espécie de “camisa dez” para liberar Geyse para o ataque. O escrete canarinho ganhou uma boa opção com a atacante do Madrid CFF brigando contra as zagueiras holandesas.

Miedema, Pelova, Martens e Beerensteyn atacavam as costas da última linha da Seleção Feminina para receber os passes em profundidade das volantes holandesas. A Seleção Feminina se mantinha fechada e tentando sair para o ataque em alta velocidade. Foto: Reprodução / SPORTV

Ary Borges (em belo chute de fora da área que acertou o travessão e em cabeçada que saiu à direita do gol de Van Veenendaal) criou as melhores chances da Seleção Feminina no primeiro tempo. No entanto, Daiane voltou a apresentar dificuldades no posicionamento defensivo e uma certa lentidão na recomposição defensiva. Grande parte do mérito do Brasil não ter sido vazado no primeiro tempo está na zagueira Tainara e na goleira Lorena, muito seguras e atentas em cada movimento adversário. E mesmo em jornada pouco inspirada, Debinha era útil para arrastar a zaga arté o meio-campo e abrir espaços para Geyse, Kerolin e Ary Borges atacarem. Faltou na Seleção Feminina um pouco mais de coordenação na hora de atacar a área de Van Veenendaal e mais cuidado nas tomadas de decisão. Principalmente por conta dos problemas no sistema defensivo holandês.

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As entradas de Ludmila e Letícia Santos após o intervalo não modificaram a formação básica da Seleção Feminina. Na prática, a equipe de Pia Sundhage ficou mais vertical e um pouco mais afobada do que o normal. Faltava alguém no meio-campo que pudesse cadenciar o jogo e organizar esse 4-2-4 mais nítido da treinadora sueca. Mesmo assim, até o gol de Beerensteyn, a tendência do escrete canarinho (conforme vista no frame acima) era marcar em bloco médio para dar o espaço que Geyse e companhia precisavam para atacar e arrastar a defesa holandesa. Há como se reclamar de falta em Ludmila no início do lance. Mas também é preciso melhorar a concentração da última linha de defesa. Principalmente pelos lados.

Apesar dos ajustes necessários na equipe brasileira, as comandadas de Pia Sundhage não se abalaram com o gol sofrido e mantiveram o plano da sua treinadora. Ao mesmo tempo, a Holanda parece ter tirado um pouco o pé do acelerador e mostrou uma certa lentidão na saída de bola. Com Ludmila e Geyse se lançando com frequência para pressionar as zagueiras Van der Gragt e Nouwen, Ana Vitória e Ary Borges fechavam o meio-campo enquanto Gio e Kerolin ajudavam a fechar os corredores laterais. Havia organização e uma postura mais vertical por parte da Seleção Brasileira ainda que houvesse a necessidade de se colocar mais criatividade e um pouco mais de fluidez no setor ofensivo.

Ludmila e Geyse pressionavam a saída de bola holandesa, Ana Vitória e Ary Borges fechavam o meio e Gio e Kerolin se posicionavam nos corredores laterais. A Seleção Feminina aproveitou bem essa queda no ritmo da sua forte adversária após o gol de Beerensteyn. Foto: Reprodução / SPORTV

A entrada de Marta influenciou a Seleção Feminina mais animicamente do que em termos táticos. A nossa camisa 10 ocupou o lado esquerdo como uma espécie de “ponta-armadora” e ajudou a melhorar a distribuição das jogadas a partir do seu setor. Diante de uma Holanda mais recuada e menos incisiva do que nos primeiros minutos do segundo tempo, o Brasil conseguiu o gol de empate em penalidade altamente discutível marcada em toque de mão de Van Dongen após chute de Letícia Santos. Por mais que o placar final não tenha mudado e que o único lance de mais emoção tenha sido o cartão vermelho da mesma Van Dongen após falta em cima de Gio, ver a Seleção Feminina jogando de maneira mais organizada e tentando colocar em prática aquilo que Pia Sundhage tanto treinou é um alento e tanto para quem cobrava evolução de um time de potencial imenso.

Marta entrou no jogo e logo depois igualou o marcador cobrando penalidade. A camisa 10 jogou mais aberta como uma “ponta-armadora” e ajudou a desafogar um pouco a criação no meio-campo da Seleção Feminina no final da partida no Estádio Michel d’Ornano. Foto: Reprodução / SPORTV

Difícil não perceber que a Seleção Feminina ganhou muita consistência defensiva, já que ela não perde tantos duelos físicos e ainda apresentou variações interessantes como o 2-4-4 do frame acima com Letícia Santos e Fê Palermo (uma das grandes surpresas da partida) se juntando a Ary Borges e Ana Vitória enquanto Marta e Gio abriam o corredor e encostavam em Geyse e Ludmila. Este que escreve ainda gostaria de ver mais testes como Tamires entrando no meio-campo junto de Marta (ou entrando no lugar dela) com uma atacante de referência puxando a marcação adversária. Ou uma trinca na frente da zaga com Luana, Angelina e Duda. Como se vê, temos sim muito talento e muitas jogadoras promissoras que podem ser extremamente úteis. A consistência e a maturidade atingiram níveis consideráveis para quem sofria tanto contra adversários mais fortes.

Estas são as grandes notícias do empate contra a Holanda da craque Miedema. Não é fácil conter a camisa nove holandesa e conter um ataque forte e muito consistente. Ainda que algumas pessoas não apreciem e encontrem todo tipo de motivo para criticar o trabalho de Pia Sundhage (de maneira até mesmo desonesta em alguns momentos), é preciso reconhecer que há um plano sendo colocado em prática. E isso se reflete no aumento do nível de maturidade de um elenco relativamente jovem. Não é pouca coisa.

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