Os esquecidos da Semana de 22: “Falta um olhar generoso para gerações seguintes”


Em uma carta de 1928, Mário de Andrade escrevia a Manuel Bandeira: “De quem não li nada e preciso ler é o Borges. Já uma vez o Ronald me disse que era o mais forte de lá.”

Borges é o escritor Jorge Luis Borges, que àquela altura ainda publicava suas primeiras ficções e ensaios. Ronald, o poeta e diplomata brasileiro Ronald de Carvalho – uma das figuras centrais da Semana de Arte Moderna de 1922, que acabou ficando à margem da história do evento e que começa a ter sua importância revista.

“Não se trata de construir um novo cânone ligado à Semana, mas de mostrar que ela foi marcada por uma pluralidade de visões”, diz Mirhianes Mendes de Abreu, professora adjunta de literatura brasileira da Universidade Federal de São Paulo.

“Ronald de Carvalho foi uma instituição do modernismo, teve uma atuação gregária, apresentava os artistas uns aos outros. E, em seu contato com vários deles, ficam claras as respostas individuais ao desejo coletivo de criação e modernização que os unia”, explica.

Durante a Semana, Carvalho fez conferência sobre a pintura e a escultura modernas no Brasil e alguns de seus poemas inspiraram canções do compositor Heitor Villa-Lobos apresentadas no Theatro Municipal de São Paulo. Como diplomata, atuou em países como México e Portugal, além de ter ocupado postos em Paris e Haia.

“A correspondência de Ronald mostra ação importante com relação ao modernismo. Ele divulgou o movimento e seus artistas na América Latina e na Europa. Nas cartas, há um viés tanto estético, com comentários sobre poemas de Mário de Andrade, por exemplo, como memorialístico, pois ele nos mostra como foi a recepção dessas obras.

“E ele realizou uma itinerância política e cultural, informando em vários locais sobre o que se passava no Brasil”, conta Abreu, que lança este ano um livro com a correspondência entre Carvalho e Mário, tema de suas pesquisas desde o início dos anos 2000.

Uma revolução por meio da poesia

Casa Guilherme de Almeida, em São Paulo, guarda o acervo do advogado, poeta, jornalista e tradutor / Wikimedia Commons

“É interessante como se construiu a memória da Semana. Muitos artistas que estiveram no Theatro Municipal acabaram esquecidos, ao contrário de outros que não puderam estar lá. Não se trata de diminuir a obra de nomes como Tarsila do Amaral e Victor Brecheret, que não puderam comparecer, mas de lembrar de outras figuras cuja importância é enorme”, explica Ivanei da Silva, museólogo da Casa Guilherme de Almeida, que guarda o acervo do advogado, poeta, jornalista e tradutor paulista.

Para Silva, o caso de Guilherme de Almeida é emblemático. “Ele participa desde o início da discussão sobre a realização da Semana. Era muito próxima de Di Cavalcanti, escreveu catálogos das exposições da Anita Malfatti, publicou seus primeiros textos junto com Oswald de Andrade. E, mesmo depois da Semana, teve papel importante. Participou das edições da Revista Klaxon. E viajou a diferentes cidades do país fazendo palestras e discutindo a ideia de uma revolução no Brasil por meio da poesia moderna.”

Almeida era homem de interesses múltiplos, lembra o museólogo. “Ele deu origem a uma verdadeira escola de tradução no Brasil, foi um dos primeiros a pensar sobre a tradução como uma forma de arte. Também trabalhou traduzindo vários textos para o Teatro Brasileiro de Comédia”, conta. “E o centenário da Semana pode ser uma oportunidade para relembrar sua ligação com os artistas do modernismo.”

Da poesia à criação da Vasp

O historiador Lucas de Nicola, autor, ao lado de José de Nicola, de “Semana de 22: Antes do Começo, Depois do Fim”, defende a necessidade de se pensar no caráter múltiplo da semana. E, para ele, resgatar personagens que acabaram se tornando secundários é uma forma de revelar o significado de “moderno” para cada um daqueles artistas envolvidos com o movimento.

Nesse sentido, a literatura é campo particularmente fértil:

Antônio Carlos Couto de Barros escreveu os primeiros contos surrealistas da literatura brasileira, além de um inovador ensaio sobre o humor na literatura. Rubens Borba de Moraes deixaria um ensaio teórico fundamental sobre o modernismo. Luiz Aranha fez poucos poemas, cerca de 20, mas foi de certa maneira o único poeta de fato futurista daquele grupo.

Nestes casos, no entanto, explicar o “sumiço” do imaginário em torno da Semana passa, talvez, pelos rumos seguidos pelos autores. “Eles acabaram, com o tempo, deixando a arte. Couto de Barros, por exemplo, foi um dos fundadores da Vasp”, lembra José de Nicola.

Luiz Aranha, que tinha apenas 20 anos ao ler alguns de seus escritos durante a Semana, acabaria, por sua vez, formando-se advogado e trabalhando como diplomata e, se continuou escrevendo, seus textos não foram preservados.

Borba de Moares tornou-se bibliófilo e assumiu a direção da biblioteca da Organização das Nações Unidas, em Nova Iorque. Outro nome desse grupo, o escritor Cândido Motta Filho, entraria para a política, trabalhando nos governos Gaspar Dutra e Café Filho, além de ser professor catedrático da escola de direito do Largo São Francisco.

Longe da patota modernista

Curadora-chefe da Pinacoteca do Estado de São Paulo, Valéria Piccoli chama atenção para o fato de, nas artes plásticas, o olhar da história da arte se basear no que ela chama de “eventos-âncora”, como a Semana de Arte Moderna, nos anos 1920, e a criação da Bienal de São Paulo, na década de 1950.

Nas frestas desses marcos, porém, há muito a ser descoberto. “Falta um olhar mais generoso, por exemplo, voltado à geração dos anos 1930 e 1940, a segunda geração do modernismo. Muitos artistas foram eclipsados pela enorme presença que Cândido Portinari conquistaria então”, afirma.

E, no que diz respeito aos artistas participantes da Semana, também há espaço para reavaliações. A importância de nomes como John Graz, Zina Aita, Rego Monteiro ou Ferrignac ainda não mereceu a devida reavaliação.

“Graz e Aita acabaram enveredando com sucesso pela arte decorativa, trabalhando também com cerâmica e, em certo sentido, deixando para trás a expectativa depositada pelos modernos”, acredita Lucas de Nicola. “Já no caso de Rego Monteiro, o que os documentos e as correspondências mostram é que, apesar de ter obras exibidas na Semana, ele nunca se integrou de fato ao grupo dos artistas do movimento.”

Obra “Arlequim e bandolim” (1928), Rego Monteiro / Galeria Almeida e Dale/Divulgação

Vicente do Rego Monteiro nasceu em Pernambuco, em 1899. Aos 12 anos, mudou-se para Paris com a família, onde viveria boa parte da vida. “Ele volta ao Rio de Janeiro por conta da Primeira Guerra e fica por lá até 1921, quando volta para Paris. Em sua estadia no Rio, ele fez amizade com Ronald de Carvalho, que possuía algumas de suas obras e as faz figurar no Theatro Municipal. Ele foi exposto em 1922 como um expoente modernista, mas em termos sociais ele não participou ativamente da Semana”, diz Eduardo Dimitrov, professor adjunto de Sociologia da Universidade de Brasília

Mesmo depois da Semana, seu contato com os artistas daquela geração não iria adiante. “Oswald de Andrade o encontrou em Paris e o convidou a integrar o movimento Antropofágico, mas os dois se desentenderam. Assim, vivendo em Paris e não investindo nas relações de colaboração com os artistas brasileiros, ele acabou se isolando da geração modernista”, completa o professor.

Para Dimitrov, porém, é preciso ter em mente também, no caso de Rego Monteiro, sua simpatia política pelo movimento integralista, de extrema-direita e inspiração fascista, criado por Plínio Salgado nos anos 1930, como fator a afastá-lo dos principais artistas de sua geração.

Este conteúdo foi originalmente publicado em Os esquecidos da Semana de 22: “Falta um olhar generoso para gerações seguintes” no site CNN Brasil.


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