Ômicron adquiriu resistência ao último anticorpo monoclonal, indica estudo


Subvariante BA.2 se mostrou capaz de driblar o sotrovimab, o único anticorpo artificial que ainda era eficaz para tratar a Covid; fabricante do medicamento questiona o resultado; entenda o que isso pode representar para a pandemia

No trabalho, publicado por cientistas da Universidade Columbia, nos EUA, as duas subvariantes da Ômicron (BA.1, a mais comum, e a mais recente BA.2) foram testadas com 19 anticorpos monoclonais – incluindo tipos experimentais, que ainda não estão no mercado. A subvariante BA.2 se mostrou resistente a todos os anticorpos monoclonais atualmente usados contra a Covid-19 – inclusive o sotrovimab, da GlaxoSmithKline, o único que mantinha eficácia contra a BA.1.

Os anticorpos monoclonais são desenhados e produzidos em laboratório a partir de uma única célula, clonada infinitamente (daí o nome “monoclonal”). Ao contrário dos anticorpos naturais, que são “policlonais” (ligeiramente diferentes entre si), os monoclonais são formados por proteínas idênticas – o que os torna especialmente suscetíveis a mutações no vírus.

No final de janeiro, a FDA americana revogou as licenças de uso do bamlanivimab, do etesevimab, do casirivimab e do imdevimab contra a Covid-19 – pois todos eles tiveram a eficácia comprometida pelas mutações presentes na Ômicron. Restou apenas o sotrovimab, da Glaxo – que agora, de acordo com os dados da Universidade Columbia, também poderá perder a utilidade.

Os anticorpos monoclonais são caros (o Regen-COV, que é o mais usado deles e contém casirivimab e imdevimab, custa US$ 2.000 a dose nos Estados Unidos) e só podem ser administrados em hospital. Por isso, eles acabam só sendo usados em pacientes cuja Covid já está num estágio mais avançado. Esses fatores acabam reduzindo a disponibilidade e a efetividade desses medicamentos (que foram liberados pela Anvisa e estão disponíveis no Brasil). 

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Nesse aspecto, os monoclonais são totalmente diferentes de antivirais como o molnuvirapir, do laboratório MSD, e o Paxlovid, da Pfizer, que são administrados por via oral, em casa, logo após o diagnóstico de Covid – e, quando estiverem amplamente disponíveis, poderão mudar a dinâmica da pandemia. Os anticorpos monoclonais não são ferramentas para uso em massa. Mas eles foram o primeiro tratamento cientificamente comprovado contra a Covid, e continuavam sendo cruciais no tratamento da doença.

Agora, podem estar ficando para trás: só poderão voltar a ser usados contra o coronavírus quando a indústria farmacêutica criar novos anticorpos monoclonais. Um deles é o bebtelovimab, que está em desenvolvimento pelo laboratório Lilly. Ele foi testado no estudo da Universidade Columbia, e se manteve potente contra a BA.2. O medicamento ainda não foi aprovado, mas o governo dos EUA já assinou contrato com o laboratório para adquirir até 1,1 milhão de doses do produto

No começo de dezembro, poucos dias após o surgimento da Ômicron, os cientistas descobriram que ela tinha duas subvariantes, BA.1 e BA.2. Inicialmente, a BA.1 dominou a onda de infecções – foi ela que se espalhou globalmente e transformou a Ômicron em dominante. Mas, no final de janeiro, a BA.2 passou a se espalhar com mais força em alguns países europeus

Ela costuma funcionar como uma segunda onda de Ômicron, que começa a subir depois que a BA.1 já se espalhou bastante por um determinado local e infectou muita gente (o que dificulta sua disseminação, já que os contaminados adquirem algum grau de imunidade). Em Israel, houve casos confirmados de pessoas que pegaram BA.1 e depois foram reinfectadas pela BA.2.

Logo após a publicação do estudo da Universidade Columbia, a empresa americana Vir Biotechnology, que desenvolveu o sotrovimab em conjunto com a Glaxo, se manifestou na direção contrária: disse que seus próprios testes indicaram que o produto continua funcionando contra a subvariante BA.2 – e prometeu publicar os resultados na semana que vem.

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