Discos clássicos internacionais que completam meio século de influência em 2022


O fim dos anos 1960 abalou as estruturas da música pop. Depois de uma década de descobertas, confrontos, psicodelia e alto astral, a música pop internacional entrou num período de autoanálise e de conflitos internos que fez com que toda uma geração de artistas surgida e consolidada na década anterior entrasse neste novo período sem saber o que poderia acontecer dali em diante.

Conhecida como a “década do eu”, os anos 1970 mergulharam num pântano desconhecido em que artistas assumiam com muitas dores sua própria maturidade, ao mesmo tempo em que se entregavam aos excessos que os anos 1960 começaram a descobrir. E 1972 é o ano em que estes mesmos artistas e bandas começaram a entender as transformações que estavam passando, cultivando suas dores e incertezas em discos que até hoje influenciam ouvintes e outros artistas.

É o período de consolidação de um rock cada vez mais enigmático e tenso, em que artistas como Rolling Stones, Black Sabbath, Neu, Genesis, Can e Yes exploram os limites de sua própria música, ao mesmo tempo em que o glam rock torna-se uma febre, revelando nomes como David Bowie, T-Rex e Roxy Music, ou que salva a carreira solo de Lou Reed.

A soul music também passa por uma transformação pesada e discos de Stevie Wonder, Cuttis Mayfield, Al Green e Bill Withers ajudam a definir o futuro do funk. Funk que também influencia gigantes do jazz, como Miles Davis e Ornette Coleman, que também abraçam as transformações do período em discos contundentes. A canção segue firme quase como resistência a partir de discos clássicos do Neil Young, Nick Drake e Big Star e a Jamaica começa a mostrar sua força musical a partir de uma trilha sonora.

Como fizemos no mês passado, ao dissecar 20 discos clássicos brasileiro lançados há 50 anos num especial de três partes, agora voltamos nossos ouvidos para álbuns clássicos da música estrangeira lançada naquele ano, em mais um especial, que começa com obras de David Bowie, Curtis Mayfield, Big Star, Al Green, Black Sabbath, Can e Bill Withers.

Al Green – Let’s Stay Together

Apesar de batizado com o título de seu grande hit, não custa lembrar que a faixa que nomeia o quarto disco de Al Green tornou-se um hit planetário onze anos depois com a versão de Tina Turner, em 1983, e coube a Quentin Tarantino restabelecer seu lugar na história ao incluí-la na versão do filme “Pulp Fiction”, de 1994.

Tal álbum não apenas carregava o título da faixa mais associada a este que é um dos maiores cantores da música norte-americana. O disco de 1972 consagrava a parceria do cantor e compositor com o produtor Willie Mitchell, dono da gravadora Hi Records, que havia contratado Green desde seu segundo disco, “Green is Blues”, de 1969.

Completamente à vontade um com o outro, Mitchell o colocou acompanhado de uma banda que incluía os irmãos Hodges (Leroy no baixo, Charles nos teclados e o mão-leve Teenie na guitarra) e o baterista Al Jackson Jr., integrante fundador do clássico grupo Booker T. & The MGs. Sobre essa base sólida, Mitchell derramava cordas deslumbrantes, vocais de apoio de sonho, percussões discretas, teclados sorrateiros e sopros irresistíveis, fazendo a voz de seu comparsa fluir límpida e brilhante.

E Green é um vocalista ímpar. Compositor de pérolas pop e cantor de uma voz firme e adocicada, ele está no mesmo patamar de ícones como Stevie Wonder, Curtis Mayfield e Marvin Gaye, mas sua conversão à igreja após o suicídio de uma namorada, em 1974, acabou por desviar sua produção musical de voos mais ousados, como seus contemporâneos. Mas a exibição de talento exibida com rigor e sofisticação neste disco de 1972 torna inegável seu talento monumental.

São baladas apaixonantes, envoltas por um glacê musical ao mesmo tempo denso e delicado, Mitchell fazendo Green cantar consigo mesmo nos lados diferentes do estéreo e o vocalista conduzindo sua voz como um pintor impressionista, um escritor romântico e um capitão de navio ao mesmo tempo.

O domínio da técnica é evidente, o alcance vocal inequívoco e o timbre queima ao mesmo tempo em que encanta, mas Green nunca se exalta, ciente de seu poder de fogo, mas delicado como um beija-flor.

Só pela faixa-título, “Let’s Stay Together” já entraria na história, mas a sequência de canções nota 10 só é quebrado num dos poucos momentos em que Green resolve cantar uma música alheia, escolhendo um hit que o grupo australiano Bee Gees havia emplacado no ano anterior.

Compositor implacável, Al não apenas reconheceu a grandeza de “How Can You Mend a Broken Heart” como transformou os quatro minutos bonitinhos da versão original em um épico soul de quase sete minutos, sussurrando o refrão entre cordas hipnóticas e vocais delicados, enquanto, de alguma forma improvável, eleva a nota do disco para além do 10.

Big Star – #1 Record

Os caminhos de Alex Chilton e Chris Bell se cruzaram pela primeira vez quando ambos, com treze anos de idade, em 1964, assistiram ao primeiro show dos Beatles em sua cidade-natal, a mítica Memphis, cidade que entrou na história da música pop ao servir de ponto de partida para artistas tão diferentes quanto Elvis Presley, Aretha Franklin, Jerry Lee Lewis, Al Green, Johnny Cash, Carl Perkins, Otis Redding, Isaac Hayes, Roy Orbison, Sam & Dave e B.B. King. Mas foi o contato com um grupo vindo de outro país que acendeu a chama do rock naqueles dois adolescentes.

Chilton conseguiu um feito e tanto ainda a essa época: liderando a banda Box Tops, emplacou um hit nacional com apenas 16 anos de idade, a irresistível “The Letter”. Ele e seu futuro parceiro se conheceram durante gravações que faziam ocasionalmente nos estúdios da Ardent e a admiração mútua fez com que Alex, que havia recusado o convite para cantar no Blood Sweat & Tears por considerar o grupo muito comercial, chamasse Chris para montar uma dupla nos moldes de Simon & Garfunkel. O guitarrista não se animou muito com o formato e chamou o amigo para assistir a um show de uma banda que havia acabado de montar com o baixista Andy Hummel e o baterista Jody Stephens, chamada Icewater.

O som direto do grupo de Bell era exatamente o tipo de sonoridade que Chilton vinha buscando e logo ele foi convidado para entrar na banda, que logo mudaria de nome. Numa época em que o rock começava a ganhar adjetivos e fugir da simplicidade cativante que havia encantado a dupla de compositores naquele primeiro show dos Beatles, o novo grupo, batizado de Big Star devido a uma cadeia de mercearias com o mesmo nome, parecia ir na contramão de todas as firulas, solos e encadeamento de acordes onipresentes em discos de folk rock, rock progressivo e heavy metal, tão dominantes naquele início dos anos 1970.

O grupo assinou com a gravadora dos estúdios que começaram suas carreiras ainda na adolescência. A Ardent havia se tornado uma subsidiária da clássica gravadora de soul music Stax e seu fundador, John Fry, foi o produtor do álbum. Com canções pop perfeitas, eles fugiam completamente da sensação barroca que dominava as paradas de sucesso no início daquela década, buscando canções de diferentes matizes que concentravam sua força em refrões inesquecíveis, riffs diretos, harmonias vocais angelicais, solos simples e sem efeitos.

A atitude dos dois compositores frente à música daquele período parecia invocar uma pureza rock’n’roll, qualidade inexistente desde que o gênero foi forjado a partir da fusão do rhythm’n’blues negro com a country music branca.

Mas o rótulo aplicado ao grupo – “power pop” – fez com que eles influenciassem artistas de diferentes origens nas décadas seguintes, do R.E.M. ao Wilco, passando por Tom Petty & The Heartbreakers, Wilco, Guided by Voices, Replacements, Teenage Fanclub, entre inúmeras outras.

Seu primeiro disco, batizado apenas de “#1 Record”, é um disco nota 10. São canções que tendem à perfeição, sejam quando pesam mais para o lado roqueiro (“Feel”, “In the Street”, “Don’t Lie to Me”, “When My Baby’s Beside Me”) ou quando invocam sorrisos ou lágrimas (em baladas eternas como “The Ballad of El Goodo”, “Thirteen”, “My Life is Right”, “Give Me Another Chance”, “Try Again” e “Watch the Sunrise”).

Seu lançamento foi recebido com festa na imprensa musical, mas a inexperiência da gravadora com a distribuição dos discos fez com que o álbum não vendesse o quanto era esperado e a banda acabou pagando este preço.

A frustração com o resultado do primeiro disco fez surgir uma tensão na banda que culminou com brigas físicas entre Bell e Hummell, fazendo o primeiro deixar o grupo – mesmo que ainda participasse das gravações como convidado.

A saída de Chris deixou os discos seguintes, “Radio City” e “Third/Sister Lovers”, ambos lançados em 1974, menos doces e mais pesados, que era a natureza musical de Chilton, e o grupo só começou a ser reverenciado como cult após a morte de Bell num acidente de carro em 1978. Desde então,” #1 Record” é considerado um dos grandes discos dos anos 1970 e “Thirteen” uma das músicas mais belas daquele período.

Bill Withers – Still Bill

Bill Withers entrou nos anos 1970 dando as cartas. Num disco de estreia produzido pelo tecladista Booker T, líder do Booker T & MGs, ele conseguiu impor-se como músico, cantor e compositor com sua presença e voz tão cativante quanto forte.

Arquiteto da soul music, ele misturava-a sutilmente com os blues e a country music e a presença de Stephen Stills em “Just As I Am”, lançado em 1971, era só uma forma de escancarar esta influência. O disco trazia entre seu arsenal de canções hits imbatíveis como “Grandma’s Hands” e “Ain’t No Sunshine”, esta última sua chave para a entrada em um panteão específico do cancioneiro norte-americano, vendendo mais de um milhão de cópias e ganhando o Grammy de melhor canção R&B daquele ano.

Para o disco seguinte, ele queria dar um salto ainda maior e assume ele mesmo a produção do disco e a autoria de todas as canções. “Still Bill” engrossa seu caldo musical à medida em que ele se associa aos músicos da 103rd Street Rhythm Band, com quem havia feito shows com as versões do disco anterior. A soul music e o blues seguem presentes, mas o tempero do funk pesado deixa gosto em todo o álbum, desde as baladas até os momentos mais dançantes.

E não é pouca coisa: “Still Bill” é certeiro. Não bastasse mostrar que Withers estava no topo de sua forma e se equivalia tranquilamente a outros mestres como Stevie Wonder, Gil Scott-Heron e Marvin Gaye, o disco ainda traz dois de seus maiores hits, “Use Me” e “Lean on Me” e é repleto de momentos de puro delírio soul.

Black Sabbath – Vol 4

A banda inglesa é um dos maiores ícones do heavy metal e um de seus pais fundadores, mas o reconhecimento de que o Black Sabbath estava entre os grandes veio apenas com seu quarto disco. Até o começo dos anos 1970, a banda formada por Ozzy Osbourne (vocal), Tony Iommi (guitarra), Terry “Geezer” Butler (baixo) e Bill Ward (bateria) não estava no mesmo patamar comercial e artístico de seus conterrâneos Led Zeppelin e Deep Purple, mesmo tendo gravado três discos que traziam alguns dos maiores clássicos do gênero.

Estes três discos foram gravados às pressas, na Inglaterra, suas composições foram feitas em meio às turnês e com um produtor que não entendia o som que a banda queria tirar. Mesmo assim, a popularidade do grupo nos EUA crescia cada vez mais e estes discos venderam, cada um deles, mais de um milhão de cópias.

Foi quando o grupo resolveu dar um passo adiante e mudou sua base para Los Angeles, nos Estados Unidos, e começaram a compor o disco que os colocaria de vez no panteão do metal.

A principal marca deste novo processo foi a entrada da cocaína na rotina da banda. Até então, o grupo bebia muito e usava remédios ilegais, mas o contato com o pó branco os transformou em uma força autodestruidora que mudou os rumos da banda – e da música.

As novas músicas, compostas sob o efeito da nova droga, fez seu som sair do pântano dos riffs de seu guitarrista para explorar novos horizontes musicais com mais força e velocidade do que nunca.

E assim pariram “Vol. 4”, que originalmente se chamaria “Snowblind”, título negado pela gravadora devido à sua referência escancarada à cocaína. Músicas como “Wheels of Confusion”, “Supernaut”, “Cornucopia” e “Under the Sun” mostraram novos rumos para o metal pesado enquanto experimentos como a delicada “Laguna Sunrise” e a clássica balada “Changes” (composta por Tony Iommi ao piano, quando o guitarrista mal sabia tocar o instrumento) mostravam que o Black Sabbath poderia ir para além inclusive das guitarras e dos berros de Ozzy.

Can – Ege Bamyasi

Cada vez mais a cena alemã dos anos 1970 é reconhecida como uma das mais influentes da música moderna, rompendo fronteiras entre erudito e popular, harmonia, melodia e ritmo, fundindo gêneros musicais e experimentando possibilidades sônicas à medida em que cogitavam novíssimas utopias. E entre tantos grupos importantes – Neu!, Kraftwerk, Amon Duul, Popol Vuh, entre muitos outros -, nenhum deles foi tão central quanto o Can.

Fundado pelo baixista Holger Czukay e pelo tecladista Irmin Schmidt, dois alunos do compositor de vanguarda Karlheinz Stockhausen, o grupo ainda contava com os músicos de jazz Jaki Liebezeit na bateria e Michael Karoli na guitarra. E apesar de terem começado sua carreira com o vocalista e escultor norte-americano Michael Mooney, foi a partir do segundo disco, com a entrada do hippie japonês Damo Suzuki que a música alemã – e do mundo – nunca mais seria a mesma.

O Can pertence a uma geração de alemães nascidos durante a Segunda Guerra Mundial e, por isso mesmo, seus integrantes tiveram uma formação musical heterodoxa, a mesma de artistas tão diferentes quanto James Brown, Velvet Underground e os Beatles.

Com este conhecimento ímpar aliado à formação de seus integrantes, o Can não demoraria muito para expandir ainda mais suas fronteiras musicais, editando trechos de músicas e superpondo outros ao experimentar também com técnicas de gravação.

E depois do lançamento de seu terceiro álbum (“Tago Mago”, gravado em um castelo em Colônia, sua cidade, no ano anterior), o grupo resolveu seguir experimentando locações para registrar o próximo disco, desta vez encontrando um antigo cinema de uma pequena cidade perto de Colônia, Weilerswist. Em vez de simplesmente gravar o disco lá, o Can transformou o local, rebatizado de Inner Space (Estado Interior, em inglês), em sua própria morada e o fazer musical se tornaria contínuo e praticamente ininterrupto, mesmo com as gravações sendo marcadas por longas partidas de xadrez entre Suzuki e Schmidt.

O novo disco seria precedido por um single improvavelmente comercial. “Spoon”, que foi lançado como música de trabalho no fim de 1971 e usada como música-tema do seriado alemão Das Messer, o que fez com que chegasse às 300 mil cópias vendidas.

O sucesso deixou o grupo mais à vontade para experimentar com canções mais hipnóticas e meditativas, mesmo que várias delas (como “Vitamin C”, “One More Night”, “I’m So Green” e a própria “Spoon”) usem o ritmo quase robótico como ponto de partida. Mas isso não os fez abrir mão de faixas mais intensas, como “Pinch”, que abre o disco, e os mais de dez minutos de “Soup”.

Na capa do disco, o Can escancarou que seu nome (“lata”, em inglês) era uma referência à lata de sopa de Andy Warhol, que rompia as barreiras entre arte e comércio. A foto de uma lata turca de quiabo do Mar Egeu (eis a tradução do nome do disco, escrito naquele idioma) só precisaria do nome do grupo aplicado no topo e se tornaria um dos principais ícones visuais daquela cena alemã.

Curtis Mayfield – Super Fly

O rap ainda nem existia mas alguém já cantava as duras dores do gueto sem meios-termos. Quando Curtis Mayfield aceitou assumir a trilha sonora do filme “Superfly”, ele não estava apenas fortalecendo uma cena que ajudaria a fazer a população negra norte-americana – e, posteriormente, do mundo – mais consciente não só das agruras do seu dia a dia mas também como superá-las, ele também estava reescrevendo a história da música pop.

A voz doce e suave de Curtis havia conquistado seu espaço nos anos 1960, quando, liderando o grupo The Impressions, ele se tornou um dos principais nomes da soul music daquela década. Cantor, compositor, músico e arranjador, ele entrou nos anos 1970 disposto a assumir sua carreira solo e a dar passos mais firmes.

A soul music aos poucos ia se transformando em funk e artistas negros começavam a pegar as rédeas da própria carreira. Curtis é um pioneiro nesse sentido: fundou sua própria gravadora (a Curton) ainda em 1968 e seu primeiro disco solo, batizado apenas com seu prenome, lançado em 1970, antecipava discussões sociais e políticas e o clima musical mais pesado que Marvin Gaye popularizaria com seu clássico “What’s Going On”, de 1971.

O cinema também passava por transformações e dois filmes de 1971 (“Sweet Sweetback’s Baadasssss Song”, de Melvin Van Peebles, e “Shaft”, de Gordon Parks) criaram uma nova cena artística que contava as mazelas da população negra vivendo à margem das duas maiores cidades dos EUA, Nova York e Los Angeles.

Chamado de blaxploitation, este novo gênero cinematográfico contava a história de heróis anônimos que viviam no gueto – dentro ou fora da lei – e mudariam a forma como os negros eram retratados no cinema. Filmes crus, violentos e pesados, eram também estilosos e lidavam com temas delicados como moral, ética e política.

Uma das principais características deste novo gênero eram suas trilhas sonoras. A de “Sweet Sweetback’s…” foi escrita e tocada pelo próprio diretor e a de “Shaft” pelo mago Isaac Hayes, que levou o Oscar de melhor canção daquele ano com a música-tema do filme. Era um funk menos dançante e mais tenso, em que guitarras elétricas, baixos pesados e baterias firmes, conviviam com teclados épicos, metais hipnóticos e cordas que criavam ambiências.

E quando Curtis Mayfield assume a trilha de “Super Fly”, filme do mesmo Parks de Shaft que contava a história de um traficante de drogas disposto a sair da vida criminosa, estas qualidades sonoras atingem um novo patamar. O clima envolvente das canções – principalmente devido ao vocal delicado de seu compositor – conquista o ouvinte sem muito esforço e desde pedradas desconcertantes (a faixa-título, “Little Child Runnin’ Wild” e as soberbas “Pusherman”e “Freddie’s Dead”) a baladas irresistíveis (como “Give Me Your Love (Love Song)”, “No Thing on Me (Cocaine Song)” e “Eddie You Should Know Better”), passando por instrumentais imprescindíveis (“Junkie Chase” e “Think”), Curtis compõe uma trilha muito maior que o filme, um disco que vendeu cinco milhões de discos e dois milhões de cada um de seus singles (“Super Fly” e “Pusherman”), mudando a forma como a música negra era encarada dentro e fora do cinema e estabelecendo parâmetros importantes até os dias de hoje.

David Bowie – The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars

David Bowie é o caçula da geração clássica do rock inglês e por questão de poucos anos não foi contemporâneo dos Beatles, dos Stones, do Who, do Pink Floyd, dos Yardbirds, dos Animals e toda aquela safra maravilhosa que ajudou a formar o rock como pilar básico da música pop do final do século 20.

Mas se a cronologia não o ajudou a andar lado a lado com seus ídolos, ele correu atrás bonito, mexendo-se ainda nos anos 1960 para conseguir entrar na história da música de alguma forma, conseguindo ao transformar o single de “Space Oddity” na trilha sonora não-oficial da chegada do homem à Lua, em 1969.

Contudo, era só um hit. Bowie ainda tentava emplacar sua carreira de forma que se colocasse de igual para igual com os grandes nomes da história do rock. Seus dois discos seguintes não obtiveram o sucesso comercial que almejava, mas quebraram algumas barreiras.

Enquanto “The Man Who Sold the World”, de 1970, abriu suas portas para os EUA, onde começou a ser relacionado ao hard rock devido ao peso elétrico daquele disco, em “Hunky Dory”, do ano seguinte, ele se deixa influenciar pelos EUA (especificamente por Andy Warhol, Lou Reed e Bob Dylan), num disco menos rock e composto quase todo ao piano.

Este último, embora hoje considerado o primeiro grande disco clássico do artista, não foi bem à época de seu lançamento porque sua gravadora sabia que ele vinha com outro disco diferente adiante e não divulgou o álbum que apresentou clássicos como “Changes” e “Life on Mars?” ao mundo, fazendo com que estas músicas – junto a outras como “Kooks”, “Oh! You Pretty Things” e “Quicksand” – só se tornassem conhecidas do grande público com o passar dos anos.

O disco que Bowie preparava quando “Hunky Dory” foi lançado era uma espécie de paródia e parábola sobre o rock dos anos 1960, conectando-se com outros ídolos, as crônicas ácidas que os Kinks faziam sobre a Inglaterra. Criou uma banda em que não apareceria – chamada Arnold Corns, em homenagem ao primeiro single do Pink Floyd, “Arnold Layne” – ao mesmo tempo em que começou a pensar na imagem um personagem que fosse uma caricatura das grandes estrelas do rock, citando nominalmente Vince Taylor, um dos primeiros rockstars ingleses, mas inspirando-se em outros nomes do passado, mas não apenas dele.

Parou de olhar para trás e começou a olhar para os lados – mergulhou tanto no glam rock do também temporão Marc Bolan, lentamente hipnotizando a Inglaterra a partir de seu T. Rex, quanto no rock selvagem e niilista de bandas norte-americanas como Velvet Underground e Stooges (cujos respectivos líderes, Lou Reed e Iggy Pop, Bowie ajudaria a brilhar nos anos 1970, tornando-se inseparáveis dos dois em alguns momentos).

Parte do repertório daquele momento apareceria em “Hunky Dory”, mas a parte mais pesada e grudenta ficaria para um disco em que Bowie lançaria em 1972, quando se apresentaria como um personagem de ficção científica.

O título épico de “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars” dá a impressão de um grande épico trágico musical, mas o fato é que não havia uma história específica sobre a chegada do alienígena bissexual andrógino que se tornaria um astro do rock ao chegar no planeta Terra.

Por mais que suas canções façam referência a uma história principal, ela não existe e a ficção científica de araque é só o fio da meada que Bowie, cercado pela versão definitiva do que originalmente era o grupo Arnold Corns, usava para desfilar futuros hinos do rock, exóticos, expansivos, extraterrestres.

A fluidez entre os gêneros do alienígena principal era uma caricatura das personalidades de Lou Reed, Iggy Pop e Marc Bolan, com o visual explorado pelo estilista adolescente Freddie Buretti, para quem Bowie havia começado a imaginar a banda fictícia que lançaria em 1971. A primeira versão desta, inclusive, havia lançado em singles canções que Bowie só iria gravar no ano seguinte, como “Lady Stardust”,“Moonage Daydream” e “Hang on to Yourself”. O potencial do próximo disco de Bowie era tão claro que dá para entender porque a gravadora RCA não investiu comercialmente em “Hunky Dory”.

O conjunto de clássicos reunidos em Ziggy Stardust consolida David Bowie como um dos grandes nomes da história da música popular. O amálgama musical do disco era tão irônico quanto reverencial em relação a elementos que já no início dos anos 1970 se tornavam nostálgicos em relação ao que o rock estava se transformando.

Da trágica profecia do fim do mundo que abre o disco em tom solene e fúnebre (a inesquecível “Five Years”) ao melancólico e previsível final do protagonista (a autoexplicável “Rock ‘n’ Roll Suicide”), Ziggy Stardust talvez seja o primeiro disco de rock clássico que tenha consciência disso, um fator que seria abraçado por outros grupos clássicos em anos seguintes, como o Pink Floyd em Dark Side of the Moon e o Led Zeppelin em Physical Graffiti.

E em seu decorrer, Bowie – escudado por um trio perfeito, as Aranhas de Marte formadas por Mick Ronson (guitarra, piano e arranjos de cordas), Trevor Bolder (baixo) e Mick Woodmansey (bateria) -, o disco ainda carrega canções que são praticamente sinônimos da carreira de seu autor, como “Starman”, “Ziggy Stardust”, “Sou Love”, “Star”, “It Ain’t Easy” e “Suffragette City”, além de todas as outras já citadas. Um disco errático por definição e perfeito em sua execução, Ziggy Stardust é praticamente uma crônica sobre como seriam os anos 1970. Além de ser uma obra-prima, mesmo com suas pequenas imperfeições.

Este conteúdo foi originalmente publicado em Discos clássicos internacionais que completam meio século de influência em 2022 no site CNN Brasil.


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