Al Ahly apresenta suas armas e mostra que está muito longe de ser considerado “apenas” uma surpresa


Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a vitória do time egípcio sobre o Monterrey e explica o que o Palmeiras deve esperar na terça-feira (8)

Poucas equipes de futebol no mundo conseguem jogar em alto nível com quase uma dezena de desfalques provocados por uma série de problemas que incluem, lesões, convocações para seleções nacionais e COVID-19. A questão é que o Al Ahly conseguiu se virar com o que tinha, teve uma atuação coletiva digna de nota e superou o Monterrey por 1 a 0 neste sábado (5), estádio Al Nahyan, em Abu Dhabi. Para muitos, a primeira grande surpresa do Mundial de Clubes da FIFA. Para este que escreve, no entanto, é a prova de que o escrete comandado por Pitso Mosimane merece respeito e atenção por parte do Palmeiras. O Al Ahly é o tipo de adversário chato e que pode causar grandes problemas para o time de Abel Ferreira no jogo da próxima terça-feira (8). Mas precisamos deixar bem claro que estamos falando de um clube que possui uma história riquíssima e marcada por títulos expressivos.

É possível sim considerar o valente Al Ahly como uma “surpresa” quando se observa o contexto da partida deste sábado (5). Quase uma dezena de desfalques por conta dos mais variados motivos e a necessidade de se enfrentar (em tese) uma equipe mais qualificada tecnicamente e melhor preparada. O que incomoda este colunista é o discurso de parte da imprensa esportiva brasileira que colocou o time comandado por Pitso Mosimane no grupo das “zebras” depois de tudo o que foi visto no estádio Al Nahyan. Não estamos mais nos anos 1980 e precisamos lembrar sempre que o esporte evoluiu muito em todas as partes do globo. Há coisas sensacionais sendo feitas em centros menos badalados do futebol.

A grande verdade é que o Al Ahly soube se adaptar ao seu contexto e jogou de acordo. Reconhecer suas limitações também é uma virtude! E o que a grande maioria dos colegas considera uma “surpresa” nada mais é do que o trabalho tático colocado em prática e o entendimento que os jogadores têm dos conceitos de Pitso Mosimane além, é claro, da sua execução da maneira mais perfeita possível dentro de campo. Quem esperava uma equipe completamente retraída viu um time aguerrido, que marcava bem forte e que saía para o ataque em altíssima velocidade. Não é exagero nenhum afirmar que o Al Ahly poderia ter vencido por uma margem maior de gols se seus atacantes tivessem caprichado mais na pontaria.

É verdade que o Monterrey entrou em campo carregando o favoritismo no confronto das quartas de final do Mundial de Clubes da FIFA por uma série de fatores. Mas também é verdade que esse favoritismo pode ter influenciado na atuação dos comandados de Javier Aguirre. Pode ser que os “Rayados” podem ter pensado que o Al Ahly não resistiria por muito tempo com tantos desfalques. E o que se viu foi justamente o contrário. Organizado num 5-4-1 de saída rápida pelos lados com os alas Ali Maâloul e Mohamed Hany, o time egípcio aproveitava demais os espaços que o Monterrey deixava por todo o campo defensivo. A bola passava pelo ótimo Mohamed Magdy Afsha e ele buscava Taher Mohamed no comando de ataque. Justamente a referência móvel que recuava para que os “pontas” Hussein El Shahat e Ahmed Radwan pudessem entrar em diagonal e partir na direção do gol de Esteban Andrada.

Monterrey vs Al Ahly - Football tactics and formations

Pitso Mosimane armou o Al Ahly num 3-4-2-1/ 5-4-1 de muita velocidade nas transições e que aproveitava os espaços deixados pelo 4-3-3 de Javier Aguirre no Monterrey.

O Al Ahly se defendia com uma linha de cinco na frente da área do goleiro Ali Lotfi e com perseguições mais curtas dentro do setor. Se o ala Mohamed Hany sai no encalço de um dos atacantes adversários, por exemplo, os quatro defensores restantes fecham aquele lado. Ao mesmo tempo, também era possível ver os volantes Mohamed Magdy Afsha e Aliou Dieng saltavam da sua linha para pressionar o portador da bola. Por mais que o time ficasse excessivamente recuado em determinados momentos, as transições para o ataque sempre eram feitas em altíssima velocidade e sempre de maneira muito organizada. Além disso, Maximiliano Meza, a principal referência técnica do Monterrey, esteve sempre muito bem vigiado.

Difícil não perceber um estudo amplo do adversário feito por todo o elenco do Al Ahly e pelo técnico Pitso Mosimane. E os números do SofaScore comprovam essa tese. Os “Rayados” tiveram 63% de posse de bola e finalizaram 19 vezes a gol, mas com apenas duas indo no alvo. A marcação do escrete egípcio prejudicava bastante as escapadas de Meza e Pizarro pelos lados do campo e a dinâmica dos volantes/meias Artuto González e Luis Romo. Com tanta gente da frente da área e acelerando até o o limite nas transições, o Monterrey se via num cenário completamente desconfortável e o time foi perdendo volume com o passar do tempo. O que faltava em calma nos “Rayados” sobrava em concentração no Al Ahly.

Linha de cinco na defesa, perseguições curtas no setor da bola e muita velocidade nas transições ofensivas. O Al Ahly colocou o Monterrey num cenário completamente desconfortável e soube muito bem com tirar proveito dos espaços concedidos pelo seu adversário. Foto: Reprodução / YouTube / FIFA

O gol da vitória gigantesca do Al Ahly nasceu de mais um contra-ataque em altíssima velocidade puxado pelos alas da equipe. No caso, Ali Maâloul partiu pela esquerda, tabelou com Ahmed Radwan e recebeu o passe em profundidade. O cruzamento (que procurava Taher Mohamed no meio dos zagueiros Kranevitter e Héctor Moreno) foi interceptado pelo goleiro Andrada, mas a bola sobrou para Mohamed Hany (o outro ala da equipe comandada por Pitso Mosimane), que acertou belo chute da entrada da área e marcou o único gol da partida. Notem que, apesar de se defender com muita intensidade quando não tem a posse, o Al Ahly sempre tentava colocar pelo menos seis jogadores no campo adversário. Enquanto o trio ofensivo arrasta a defesa para trás, o volante Mohamed Magdy Afsha e o ala do lado oposto atacam o espaço que se abre na frente da área. Organização, boas ideias e muito volume de jogo.

Ali Maâloul parte pela esquerda, o trio ofensivo arrasta a defesa do Monterrey para trás e o volante Mohamed Magdy Afsha e o ala Mohamed Hany aparecem na entrada da área. O gol do Al Ahly nasceu de uma das muitas transições em alta velocidade da equipe egípcia. Foto: Reprodução / YouTube / FIFA

Por tudo que apresentou no jogo deste sábado (5), o Al Ahly mostrou que merece respeito e que está muito longe de ser considerado apenas uma mera “surpresa” desse Mundial de Clubes da FIFA. Não é qualquer equipe que consegue jogar num nível tão alto com tantos desfalques (claro que guardadas as proporções). Mesmo assim, este que escreve fica com a opinião de que a vitória nasceu dos méritos do time comandado por Pitso Mosimane do que pelas falhas do Monterrey de Javier Aguirre. O contexto e o cenário completamente desfavorável antes da bola rolar permite que possamos classificar o resultado no estádio Al Nahyan como uma “surpresa”. Mas nunca devemos esquecer que estamos falando de um clube que possui uma cultura de vitórias muito marcante e que é considerado um verdadeiro gigante na África. Não podemos tomar o nosso ambiente como régua para medir o futebol jogado em outras partes do mundo.

Certo é que o Palmeiras vai ter trabalho e que Abel Ferreira terá que se desdobrar mais uma vez para descobrir as fraquezas do seu adversário de terça-feira (8). O jogo, que já seria complicado por si só, deve ganhar outros contornos com o retorno dos jogadores que estão jogando a Copa Africana de Nações. E por mais que o atual bicamnpeão sul-americano seja sim o favorito no confronto, o fato do Al Ahly entrar como “zebra” mais uma vez pode ser outro fator complicador para o treinador português.

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