Como evitar distorção temporal pode ajudar astronautas a viverem em Marte


Desde o início da pandemia, a chegada de cada ano novo parece uma reprise do número “Let’s do the time warp again”, do filme The Rocky Horror Picture Show. Agora, imagine se você vivesse no espaço.

Para nós, aqui na Terra, a adaptação ao “novo normal” — com longos períodos de trabalho remoto e a quebra de rotinas pré-estabelecidas — cria a sensação de que o tempo não tem significado.

Os astronautas vivenciam um tipo diferente de distorção do tempo quando viajam ao espaço e passam seis meses ou mais vivendo na Estação Espacial Internacional. A partir de suas perspectivas, em uma órbita terrestre baixa, a equipe observa o Sol nascer e se pôr 16 vezes ao dia.

As jornadas de trabalho de 12 horas dos astronautas são detalhadamente planejadas. Eles trabalham, por exemplo, em experimentos e na manutenção da estação espacial, incluindo reparos e limpeza.

Quebrando o recorde de voo espacial individual mais longo feito por uma mulher, a astronauta da Nasa Christina Koch passou 328 dias no espaço, entre março de 2019 e fevereiro de 2020.

“Temos um ditado nos voos de longa duração: é uma maratona, não uma corrida de curta distância”, disse Koch ao podcast Chasing Life, da CNN.

“Na minha mente, eu mudo para ‘é uma ultramaratona, não uma maratona’. E eu me certifiquei de avisar as pessoas ao meu redor que eu provavelmente precisaria de ajuda em algum momento, que precisaria delas para coisas diferentes e que talvez não fosse fácil todos os dias.”

Enquanto se preparava para a missão, Koch falou com seu colega astronauta da Nasa Scott Kelly, que ainda mantém o recorde de 340 dias no espaço. Kelly lembrou Koch de que era crucial manter a calma e expressar as coisas de que precisava para conseguir se recuperar. Essas dicas (e as que a seguiram) são válidas tanto para uma situação de gravidade zero quanto para uma pandemia global.

“Temos muitas medidas de saúde mental a bordo: videoconferências com nossas famílias, músicas e programas de TV de que gostamos, até a jornada de trabalho é pensada para sustentar uma missão de seis meses”, disse Koch.

“Cabe realmente a nós avisarmos a [equipe na] Terra quais são as medidas de saúde mental que podemos usar para manter alguém trabalhando com o máximo desempenho por até mais tempo do que o de uma missão típica.”

Como o tempo passa no espaço

Atividades dinâmicas, como videochamadas com a família, caminhadas fora da estação espacial e celebração de datas comemorativas são fatores que ajudam a equipe a distinguir um dia do outro e evitar a distorção temporal causada pela repetição, segundo Koch.

“Mesmo se estivéssemos muito ocupados, como nós estávamos, o fato de que não estávamos vendo coisas novas, sentindo odores diferentes e de que nossas informações sensoriais não estavam mudando é realmente o que trazia a sensação de distorção temporal”, disse a astronauta. Soa familiar, né?

Koch, ao lado da astronauta da Nasa Jessica Meir, conduziu a primeira caminhada espacial somente de mulheres em outubro de 2019. Durante sua estadia de 11 meses na estação espacial, Koch realizou seis caminhadas espaciais e passou 42 horas e 15 minutos fora da estação.

Porém, nas lembranças de Koch, as caminhadas espaciais têm um peso maior. “Quando eu olho para trás, na minha cabeça, eu estava fazendo caminhadas espaciais durante metade do tempo”, afirmou. “Mas, na realidade, aquela era uma parte tão pequena do que fazíamos. Ela parece ser uma parte tão grande em termos de memórias e experiências que tivemos lá em cima.”

Outra lembrança que se destaca para Koch inclui uma celebração especial de Natal com seus colegas. Eles apagaram todas as luzes da estação e criaram “velas espaciais”, cobrindo lanternas com fitas e espalhando-as pela estação, de maneira que o local parecia brilhar à luz de velas.

“Foi o único dia que pareceu uma fuga de tudo, não só da estação espacial, mas de qualquer coisa semelhante à realidade normal”, contou Koch.

O rigor da exploração

As missões concluídas por Koch e Kelly são apenas o começo. Missões prolongadas estão ajudando a Nasa a planejar o retorno de humanos à Lua e a ida em missões pioneiras a Marte.

Missões no espaço profundo vão acrescentar extremos que os astronautas nunca enfrentaram antes, incluindo uma dependência reduzida na comunicação com a Terra e como lidar com o isolamento social vivendo em um ambiente tão longe do nosso planeta.

Há três testes de preparação para essa nova fronteira de exploração: missões simuladas na Terra, estadias prolongadas na estação espacial e, finalmente, as primeiras missões Artemis que levarão para a Lua a primeira mulher (que também será a primeira pessoa negra a estar no satélite natural).

Durante as missões Artemis, os astronautas vão usar diários para fazer anotações sobre seu bem-estar, além de usar dispositivos que vão monitorar seu sono e ritmos circadianos, segundo a Nasa.

Manter um ciclo do sono saudável, se comunicar bem com o restante da equipe e aliviar o tédio e a estagnação são medidas que podem ajudar os viajantes do espaço em longas missões para Marte. Elas também podem evitar que eles desenvolvam distúrbios psiquiátricos ou que tenham problemas cognitivos ou comportamentais.

Quando chegarem a Marte, os astronautas terão tarefas árduas e fisicamente exigentes. Eles vivenciarão dias que são 37 minutos mais longos do que os da Terra.

Lições de autocuidado do espaço

Algo que já está ajudando no bem-estar mental dos astronautas na estação espacial é a jardinagem. Membros da equipe afirmaram gostar de cuidar de experimentos envolvendo plantas durante seu tempo ocioso, observando-as e até mesmo provando o sabor de seus cuidados.

A atividade também fornece uma conexão tangível com o planeta Terra.

Tom Williams, cientista de fatores humanos e performance comportamental do Programa de Pesquisa Humana da Nasa, afirma que o acrônimo “CONNECT” pode ajudar astronautas a combater o isolamento social.

As letras representam as iniciais das palavras “community” (comunidade), “openness” (abertura), “networking”, “needs” (necessidades), “expeditionary mindset” (mentalidade expedicionária), “countermeasures” (contramedidas) e “training” (treinamento). Juntos, esses esforços podem ajudar futuros exploradores espaciais a incluir o autocuidado em suas rotinas, ajudar uns aos outros e até reconhecer o impacto de seus cuidados.

“A aterrissagem na Lua ajudou as pessoas ao redor do mundo a se sentirem mais unidas, porque elas tiveram um senso de pertencimento, unidade, com esperanças compartilhadas e sonhos realizados”, disse Williams em um comunicado.

Para as pessoas na Terra que têm a sensação de distorção temporal com a continuidade da pandemia, as mesmas lições se aplicam.

“Ajude os outros e esteja disponível para que outros te ajudem”, disse Koch. “Aprenda a ficar confortável com seu próprio contentamento. O outro lado disso é criar metas para si mesmo. Acho que, quando olhamos para trás, descobrimos que fizemos mais do que havíamos percebido.”

Este conteúdo foi originalmente publicado em Como evitar distorção temporal pode ajudar astronautas a viverem em Marte no site CNN Brasil.


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