Do grão da voz ao caos do poema de Mariá Portugal


Há mais de 20 anos atuando em inúmeros projetos – como o grupo Claras e Crocodilos, de Arribo Barnabé, e a banda Quartabê –, a cantora, compositora e baterista Mariá Portugal lançou recentemente o álbum EROSÃO. Como o nome sugere, o disco explora camadas sonoras e temporalidades variadas que se acumulam e se modificam ao longo das faixas.

Capa de “Erosão”, de Mariá Portugal. Arte: Maria Cau Levy

“No início de 2019, reuni em estúdio Maria Beraldo, Joana Queiroz e Chicão (Quartabê), mais Thiago França (Metá Metá), Rui Barossi, André Bordinhon (Quarteto Solto), Filipe Nader, Arthur Decloedt (Música de Selvagem) e Paulo Braga (Arrigo Barnabé). A gravação também contou com a participação do cantor Tó Brandileone (5 a Seco), que se tornou uma segunda voz no álbum, presente em quase todas as faixas”, relembra a compositora – leia a entrevista a seguir. 

Em 2020, Mariá levou as gravações para a cidade de Moers, no noroeste da Alemanha, onde passou o ano como 13ª Improvisadora em Residência do Moers Festival. Em meio à pandemia de covid-19, ela editou e processou as improvisações captadas em estúdio, além de gravar a própria voz.

Lançado no Brasil pelo selo Risco e internacionalmente pelo alemão Fun in the Church, EROSÃO é composto por clarinete e clarone (Beraldo e Queiroz), sax alto (Nader), sax tenor e flauta (França), piano (Chicão e Braga), contrabaixo (Barossi e Decloedt), guitarra elétrica (Bordinhon), guitarra acústica (Ingo Borgardts) e bateria (Mariá). Além de disponível nas plataformas digitais, conta com uma versão em vinil e um fanzine – a identidade visual do projeto é assinada pela designer Maria Cau Levy.

Fanzine de “Erosão”. Design: Maria Cau Levy

O álbum começa com a voz de Mariá em evidência no percurso contemplativo de Cheio/Vazio: “É tão diferente/ Passear por um lugar/ Em que a maior das festas já se deu”. Aos poucos, somam-se os vocais de Brandileone e as manipulações de vozes e instrumentos que dão o tom do trabalho.

Os espaços habitados pela memória na faixa de abertura são preenchidos pelo mar em Dois Litorais – já gravada por Joana Queiroz no álbum Tempo Sem Tempo: “Não adianta se desviar/ São dois lados do mesmo mar/ O meu lado quente/ E o seu congelado/ A água que me refresca é/ a mesma que te petrifica/ A mesma água/ O mesmo sal”.

Na terceira música do disco, a matéria-prima em destaque nas praias de Mariá é O Grão da Voz. “Apenas um grão/ é o necessário/ pra detonar a bomba/ no coração da nota/ vandalizando a língua/ até o caos do poema”, canta a artista, aludindo às reflexões da obra homônima do filósofo Roland Barthes e ao entendimento de grão na música eletroacústica.

O álbum navega por águas profundas em Petróleo, composta por Mariá e Paula Mirhan: “Nunca te vi/ Mas te imagino/ Viscoso/ Opaco/ O contrário do espelho”. Nos versos de Telepatía, Mariá recolhe fragmentos sonoros – captações não desejadas das gravações – e imagéticos para atravessar distâncias: “Yo coleciono fotografías/ De todas las horas de mi vida/ E intento enviarte por telepatía”.

A última faixa, Um Olho Aberto, reflete sobre noções de natureza “onde a verdade é garimpada/ até não sobrar nada”, situando o ouvinte, ao final, numa paisagem sonora que encerra o processo de erosão (des)construído ao longo do álbum.

Mariá Portugal. Foto: Kristina Zalesskaya

Mariá vive atualmente entre Duisburg (Alemanha) e São Paulo. Aos 37 anos, mesclando interesses por canção, música eletrônica e improvisação, já tocou com artistas e grupos como Elza Soares, Iara Rennó, Fernanda Takai, Metá Metá, Pato Fu e Zélia Duncan.

Formada em Composição pela UNESP, com mestrado em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP – onde pesquisou as relações entre corpo e som no contexto da trilha sonora para dança –, Mariá também compõe para filmes e espetáculos. Com Maria Beraldo, foi indicada aos prêmios Shell (2019) e Bibi Ferreira (2020) pela direção musical e pelos arranjos de Lazarus, de David Bowie e Enda Walsh, dirigido por Felipe Hirsch.

Após concluir a residência em improvisação do Moers Festival, em 2021 Mariá passou a integrar o grupo de curadores do projeto Soundtrips-NRW, que promove um circuito de improvisação livre no estado alemão da Renânia do Norte-Vestfália.

Leia a entrevista com Mariá Portugal.

Como o nome do álbum sugere, EROSÃO resulta de uma soma de tempos e processos. Quais foram as principais etapas desse trabalho?

No início de 2019, reuni em estúdio Maria Beraldo, Joana Queiroz e Chicão da Quartabê, mais Thiago França (Metá), Rui Barossi, André Bordinhon (Quarteto Solto), Filipe Nader, Arthur Decloedt (Música de Selvagem) e Paulo Braga (Arrigo Barnabé). A gravação também contou com a participação do cantor Tó Brandileone (5 a Seco), que se tornou uma segunda voz no álbum, presente em quase todas as faixas. 

Em 2020, levei o material resultante dessa gravação num disco rígido para Moers (Alemanha), onde fui passar um ano como a 13ª Improvisadora em Residência do Moers Festival. Durante 2020, editei e processei o material gerado pelas improvisações, adicionando também overdubs da minha voz às gravações.

Mariá Portugal. Foto: Kristina Zalesskaya

O tratamento sonoro da fase de edição parece conferir certa materialidade e espacialidade às faixas. O que você buscou nesse processo?

Cada faixa foi editada seguindo uma única premissa de tratamento sonoro, que se relaciona intimamente ao conteúdo da canção. Petróleo, por exemplo, trabalha com filtragem; O Grão da Voz, com micro-samples; Telepatía, com sons não desejados da gravação. O resultado são seis diferentes níveis de erosão do material original gerado em São Paulo, que sofreu desde pequenas interferências (como Dois Litorais) a transformações totais (como Telepatía e O Grão da Voz).

O álbum começa com Cheio/Vazio, com uma primeira parte que se concentra na tua voz, ganhando outros elementos na sequência, incluindo os vocais de Tó Brandileone. Como se deu a construção dessa faixa?

Cheio/Vazio é um bom exemplo de como o processo do álbum se deu. Não sei exatamente quantos takes usei nessa faixa, talvez dois ou três. Há partes da faixa que são radicalmente manipuladas, outras que estão tal qual tocamos em estúdio. E há um som eletrônico, que é uma exceção à regra do disco, todo feito apenas com instrumentos acústicos. Isso só acontece em Cheio/Vazio e em Um Olho Aberto.

O Grão da Voz soa como uma espécie de síntese do álbum, a partir de elementos mínimos que vão se sobrepondo, formando e erodindo camadas.

Foi a primeira canção que comecei a pós-produzir, e a que mais deu trabalho. É inspirada no texto O Grão da Voz, de Roland Barthes, e teve como procedimento base a ideia de grão da música eletroacústica. É dedicada à Juçara Marçal, que, para mim, é uma das vozes atuais que dão sentido ao momento. Como disse Ezra Pound: “Os poetas são as antenas da raça”, e precisamos urgentemente dessas antenas para articular passado e futuro, que é o que precisamos hoje, mais do que nunca. E sem voz, não há poesia. 

Como foi a parceria com Paula Mirhan em Petróleo?

Paula me convidou a fazer uma canção para seu disco, que tinha um tema: o ódio. Fizemos a canção à distância, se não me engano, trocando e-mails e mensagens de voz. A canção acabou dando nome ao seu disco, o que me deixou muito orgulhosa. 

Telepatía fala de uma coleção de fotografias de todas as horas da vida, com uma sonoridade que, por sua vez, coleciona fragmentos e cortes. Como essa faixa foi criada?

Telepatía surgiu como uma carta de amor à minha mulher [a atriz chilena Manuela Martelli]. É a faixa mais processada do álbum, totalmente feita de ruídos indesejados e gravação: abrir e fechar portas, frases entre tomadas, risos, ruído estático, pisadas em pedais de efeito, respiração. Fala de presença e ausência, de sentir alguém ao mesmo tempo tão próximo e tão distante – exatamente o que senti em relação aos colegas músicos, quando pós-produzi o álbum em Moers. Acabou virando uma carta de amor aos meus amigos também. 

Um Olho Aberto fala de noções de natureza e termina com uma ambiência de floresta. Poderia nos falar sobre essa temática ao final do álbum e a dedicatória à Elza Soares?

Essa faixa foi feita especialmente para o álbum Deus É Mulher (2018), de Elza Soares, no qual também gravei como instrumentista. Começando com um delicado duo entre Maria Beraldo ao clarone e Paulo Braga ao piano, a canção faz uma reflexão sobre a manipulação da ideia de natureza e como ela pode se tornar facilmente um dispositivo de poder para dominar, discriminar e destruir – desde negros, homossexuais, índios e mulheres até animais, oceanos e florestas. A faixa brinca com oposições entre orgânico (instrumentos acústicos) e sintético (as drum machines Linn Drum e TR-808), humano e animal, floresta e cidade.

[Continua…]

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Foto: Guilherme Lund


 

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Roger
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