Novo documentário explora vida de pioneira na luta pela proteção dos tubarões


Aos 85 anos, Valerie Taylor veste com certa dificuldade um traje de mergulho cor de rosa. Quando ela termina de colocá-lo, vai logo para debaixo d’água, onde começa a interagir com vários de seus velhos amigos – os tubarões. 

“Todo mergulho tem o potencial de ser uma grande aventura”, diz Valerie em uma das cenas de Brincando com Tubarões, documentário que estreia nesta sexta (23) no Disney+. O filme é um mergulho (com o perdão do trocadilho) sobre a vida da australiana, pioneira na captação de imagens da vida marinha e no estudo (e conservação) dos tubarões.

Uma breve história de Valerie

Para muitos, Valerie é considerada uma lenda viva. Nascida em 1935, ela começou a mergulhar quando era adolescente e, um pouco mais tarde, passou a praticar caça submarina (nos anos 1950, campeonatos do tipo eram uma febre por lá). Taylor era bastante habilidosa – a ponto de se tornar uma campeã.

Aos poucos, contudo, ela percebeu que a vida marinha era algo para se proteger e apreciar. A partir daí, começou a investir na captação de imagens subaquáticas acompanhada do marido, Ron Taylor, e a trabalhar em prol da preservação dos animais.

Nos anos 1960, Valerie e seu marido eram pioneiros na gravação de tubarões sem a proteção de uma gaiola. Eles fizeram documentários e participaram de uma série de produções audiovisuais – a mais famosa delas, o clássico Tubarão (1975).

No filme de Steven Spielberg, o tubarão é pintado como o vilão da história. Muitos argumentam, inclusive, que a repercussão do longa possa ter colaborado para uma visão pessimista dos animais na época – algo que, na prática, não faz muito sentido. As chances de sofrer um ataque de tubarão são muitos pequenas (1 em 3,75 milhões). É mais provável morrer atingido por um raio do que por um ataque desses.

“Ninguém espera ver o King Kong no Empire State Building quando vai para Nova York, certo? Então por que esperar encontrar Bruce [o tubarão do filme] quando vai à praia?”, disse Valerie durante uma coletiva de imprensa de Brincando com Tubarões, da qual a Super participou. A australiana confessou que, na época, ninguém envolvido na produção do longa achava que o público levaria tão a sério uma história fictícia. “É muito raro encontrar um tubarão na vida real – e se você ver, considere-se privilegiado.”

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Ao longo da vida, Valerie mergulhou com tubarões incontáveis vezes, e acredita que eles podem ser tão amigáveis quanto um cachorro – você só precisa dar motivo a eles para passar um tempo com você. Foi essa ideia que ela tentou passar com seu trabalho, mostrando que eles não são perigosos como sua má fama faz parecer e que são seres magníficos, com personalidades únicas.

Os bastidores do documentário

“A primeira vez que vi a Valerie foi durante a adolescência, em uma capa da revista National Geographic junto a um tubarão”, relembra Bettina Dalton, produtora do documentário. Para ela, as imagens captadas por Taylor traziam o mundo submarino para a sala de estar de sua casa na Austrália. “Nunca vou esquecer essa cena, ela parecia uma super heroína.” 

Brincando com Tubarões é construído principalmente a partir de filmagens de Valerie e Ron. Sally Aitken, diretora do documentário, afirmou durante a coletiva que trabalhar com este material foi, ao mesmo tempo, um privilégio e uma grande responsabilidade por conta dos 50 anos de aventuras subaquáticas documentadas em imagens e diários. 

Para além da trajetória de Valerie, as cenas do filme ajudam a contar a história da própria vida marinha. “Ela prestou um grande serviço para a ciência, não só por suas iniciativas de proteção dos oceanos, mas também pela captação das imagens em si”, conta Bettina.

Para Aitken, por meio das filmagens de Valerie, podemos testemunhar o que tínhamos e o que perdemos em questão de quantidade e diversidade dos ecossistemas marinhos. A produção do documentário espera que o filme chame atenção para a importância da preservação da vida marinha – e desperte a responsabilidade coletiva ante esse problema.

“Acho que sou muito sortuda por ter passado a vida mergulhando e explorando a vida marinha, mas hoje muitos lugares estão sendo destruídos”, disse Valerie. A conservacionista lamenta também a pesca desenfreada de tubarões, por exemplo, que coloca em risco a existência de muitas espécies – e dos oceanos em geral.

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