Quem foi Wu Lien-teh, pioneiro no uso de máscaras homenageado pelo Google


Quem visitou o site do Google hoje se deparou com a ilustração de um simpático médico entregando máscaras de proteção para seus colegas. O doodle – figura principal da página de buscas que muda para comemorar datas especiais – celebra o aniversário do médico malaio Wu Lien-teh, epidemiologista precursor no uso de máscaras que ajudou a combater uma epidemia há mais de um século, e cujo legado é importante para o enfrentamento da Covid-19.

Nascido de pais chineses na Malásia em 10 de março de 1879, Lien-teh migrou aos 17 anos para a Inglaterra após receber uma bolsa de estudos da Universidade de Cambridge, onde se formou médico. Nos anos seguintes, complementou sua formação com mais estudos no Reino Unido e também na Europa, até retornar ao seu país natal. Em 1910, uma misteriosa epidemia começou a matar os habitantes do nordeste da China, incluindo a importante cidade de Harbin. A doença, que ficaria conhecida como Praga da Manchúria, ceifaria mais de 60 mil vidas nos quatro meses que a epidemia durou.

Logo após os primeiros casos, o governo chinês pediu a ajuda de especialistas para conter a tragédia – e Lien-teh, filho de chineses, foi um deles. Ao chegar no país, o médico realizou a primeira autópsia da história da China, em uma mulher japonesa que tinha morrido da praga. Com o exame, Lien-teh concluiu que a doença respiratória era causada por uma bactéria, a Yersinia pestis, responsável também pela peste bubônica.

Mas Lien-teh foi além: ele concluiu que a doença era transmitida de pessoa para pessoa, através de pequenas gotículas respiratórias espalhadas ao falar, tossir ou respirar. Era uma ideia inovadora e que contrariava o entendimento geral dos cientistas da época, que acreditavam que só era possível se infectar tendo contato direto com pulgas que eram transportadas por animais como ratos.

Continua após a publicidade

Suas ideias foram recebidas com ceticismo e minimizadas por outros especialistas. Um outro médico importante convidado pelo governo chinês para combater a epidemia era o francês Girard Mesny, que se opunha à tese de Lien-teh. Apesar da insistência de seu colega malaio em recomendar o uso de máscara e procedimentos de higiene ao tratar os pacientes doentes, o francês se recusava. Mesny morreu em janeiro de 1911, vítima da praga que tentava conter.

A morte do proeminente médico francês ajudou a dar credibilidade às ideias de Lien-teh. O malaio então sugeriu suas medidas de contenção: a primeira, e mais importante, seria o uso de máscaras ao tratar pacientes infectados. Ele produziu uma máscara feita de algodão e gaze, com camadas extras de tecido e laços mais apertados, baseados em designs anteriores. Depois, começou uma campanha para que todos os profissionais de saúde usassem esses equipamentos  – criando assim a primeira estratégia de uso de máscaras para controlar uma epidemia.

O médico não parou por aí; estabeleceu centros de quarentena e tratamento para infectados, convenceu as autoridades a decretarem medidas de controle do movimentação das pessoas, estendeu o uso de máscaras para a população geral e até conseguiu fazer com que os corpos das vítimas fossem cremados para evitar infecções – uma prática funerária que não era comum e nem bem-vista na China da época.

Em março de 1911, a epidemia finalmente chegava ao fim, graças ao conjunto de medidas estabelecidas pelo médico. Ele logo chamou atenção da comunidade internacional pelo seu sucesso, e no mesmo ano liderou uma conferência com especialistas de todo o mundo para compartilhar sua experiência. Em pouco tempo, suas ideias se tornaram parte do mainstream da epidemiologia.

Em 1935, ele foi o primeiro malaio – e a primeira pessoa de ascendência chinesa – indicado ao Prêmio Nobel de Medicina por seu trabalho no combate da epidemia respiratória. Hoje, é conhecido também como “pai da saúde pública da China”, já que continuou no país desenvolvendo os sistemas públicos de saúde e de vigilância epidemiológica.

Lien-teh faleceu em 1960, vítima de um derrame cerebral; seu legado é lembrado até hoje, e ganhou importância dobrada na pandemia de Covid-19, já que muitas das medidas usadas hoje para conter o espalhamento do vírus foram inauguradas por ele na Praga de Manchúria, especialmente o uso generalizado de máscaras. Seu design improvisado com algodão, gaze e tecido, inclusive, é considerado o precursor das máscaras N95/PFF2, o equipamento médico mais eficiente em filtrar pequenas partículas de saliva e proteger o usuário da contaminação. 

Continua após a publicidade


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.