‘Sem orientação espiritual, paz e harmonia não são possíveis’

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Swami Shantatmananda

Monge sênior indiano

Presidente da Ramakrishna Mission de Nova Déli

Em visita a Belo Horizonte, o presidente da Ramakrishna Mission de Nova Déli, na Índia, conversou com O Tempo sobre a intolerância religiosa no mundo, a polarização ideológica e deu dicas de como encontrar paz no cotidiano. Para ele, o segredo está na “atitude em relação à vida”. “É o que importa” , afirma o guru indiano.

Swami Shantatmananda veio ao Brasil a convite de Swami Nirmalatmananda, presidente da Ordem Ramakrishna no país. Sediada na Índia, a entidade pratica preceitos do hinduísmo e prega respeito entre as religiões, além de administrar projetos sociais de saúde e educação. “Swami” é o título honorífico reservado aos monges da escola filosófica da Vedanta, base do hinduísmo. Entre os adeptos da tradição, que estimula o conhecimento de si mesmo como forma de entender o mundo, Swami Shantatmananda é considerado um monge sênior. Nesta quinta-feira (20), Shantatmananda esteve no Centro Ramakrishna Vedanta em Belo Horizonte para dar uma palestra. Além disso, a Editora Vedanta lançou a tradução inédita do livro “Jnana Yoga – O Caminho do Conhecimento”, escrito a partir ensinamentos de Vivekananda sobre a Yoga do Conhecimento, e “Meditação, Mente e Yoga de Patânjali”, de Swami Bhaskarananda.

A tradição Ramakrishna prega a paz. Como vai a paz no mundo nos nossos dias?

Existem forças positivas e negativas no mundo, porque a natureza dele é construída dessa forma e é assim desde tempos imemoriais. E a nossa natureza está diante dessas duas forças. Então, neste mundo, não se pode estabelecer a paz para sempre e para todos. Mas, então, o que a mensagem de paz diz? É possível trabalhar essa mensagem com algumas pessoas em uma comunidade, em determinada área, e ajudar alguns indivíduos a alcançar a paz na vida. A paz absoluta é um mito e não existe em nenhum momento da criação.

Qual é o caminho?

No hinduísmo, a ênfase está no indivíduo. Não olhe tanto para o mundo objetivo, mas para o mundo subjetivo. Pode haver fogo ou confusão no mundo aí fora, mas você pode simplesmente fechar os olhos e encontrar a paz.

E como fazer isso no dia a dia?

Devemos pensar no verdadeiro objetivo da nossa vida. Quando você percebe que objetivos como dinheiro não o levam além de certo ponto, começa a procurar um significado mais profundo para a sua vida e a iniciar práticas e leituras que acalmam a sua mente. Vagarosamente, conquista mais paz.

O senhor já citou que há diferença entre tolerância e total aceitação. Qual é essa diferença?

Quando você fala em tolerância, refere-se a algo como “Eu tolero você”, o que significa que a pessoa com quem está falando é imperfeita, tem problemas e ainda assim você tolera que seja dessa forma. Tolerância é uma atitude condescendente. Mas aceitação é dizer: “Eu aceito você pelo que é, não penso que seja inferior”. Essa é diferença.

Estamos mais intolerantes hoje em dia?

A intolerância hoje em dia tem outras dimensões além da religião. Muito da intolerância de hoje se refere a questões econômicas. Entre as nações, existe essa vontade de dominar uma a outra. Mesmo no nível das pequenas comunidades, questões econômicas são o plano de fundo. Uma pequena porção de pessoas mantém poder, enquanto muitas pessoas estão vivendo em pobreza e com privações, e por isso surgem as brigas. Hoje, essa questão da tolerância religiosa não é o mais importante, porque as pessoas estão abandonando a religião em si. Então, mesmo havendo intolerância, ela não é relativa à religião, não é questão de eu não tolerar a sua ou você não tolerar a minha. É claro que você não pode dizer que não exista intolerância religiosa, mas há várias outras.

O Brasil passa por um momento de polarização política que se reflete nas relações entre as pessoas. Como superar isso como indivíduos e como povo?

O hinduísmo já disse isto há muito tempo: a não ser que tenhamos uma orientação espiritual na vida, a paz e a harmonia não serão possíveis. Estamos sempre lutando por ouro e dinheiro e essa luta nunca vai ter fim. Ser realmente espiritual significa ir além dessas questões. Quando você procura satisfação nos aspectos superiores da vida, tudo isso pode ser relevado. Precisamos de mais professores espirituais para aprender isso tudo. Só o ritual de ir à igreja e doar um pouco de dinheiro para a caridade não basta. Em todo o mundo, há pessoas com uma prática espiritual bem intensa que ajudam outras nesse caminho.

E alguém pode se tornar mais espiritual sem religião?

Sim, a religião é como uma casca, um coco, e o que está dentro é a espiritualidade. Então, é possível, se por religião você entende apenas os rituais, já que o espiritual está no interior da pessoa. Você pode ser intensamente espiritual sem ir à igreja.

Com a internet, estamos mais conectados que nunca, mas e em relação ao outros, estamos realmente conectados?

Não, de fato estamos cada vez mais desconectados, até maridos e esposas não falam um com o outro se olhando, mandam mensagem. Essas facilidades ajudaram na distância, mas esvaziaram nosso coração. Você lembra como cumprimentávamos as pessoas no passado? Aquele sentimento do encontro se foi. Nós deveríamos tentar pelo menos algum tempo entre a família e os amigos sem esses aparelhos. Ir para um retiro de três dias para estar conectados uns com os outros, sentir emoção. Há muitos lugares bonitos por todo o Brasil, não haveria dificuldade em encontrar algum para isso.

Como sair da correria cotidiana?

Essa correria não está nos levando a lugar nenhum, apenas à destruição. Há um aumento de ataques do coração, pressão alta, todas essas doenças… Deveríamos pensar nisso e ir em direção à nossa liberdade, à nossa independência.

E como escapar da autossabotagem e de ciclos viciosos?

Você precisa de um mestre na vida espiritual. Quando você encontra uma boa tradição e bons professores, lentamente pode começar.

Como identificar esse verdadeiro líder espiritual?

Se você não for uma alma sincera, não será capaz de identificar. Se você não for um expert em ouvir a música, não vai reconhecer um músico expert. Da mesma forma, só se for um bom praticante poderá identificar um bom mestre.

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