7 palavras japonesas que podem nos ajudar a ter serenidade

Leo Lib

Livro sugere o que o Ocidente pode aprender a partir de uma visão de mundo única (Foto: ALAMY via BBC)

BBC topo (Foto: BBC)

 

Mais do que uma simples recordação do Obon, festival que homenageia os antepassados, a experiência dela na infância reflete uma filosofia – uma das muitas que aparecem no livro, questionando os valores ocidentais dominantes.

Fujimoto, diretora de Estudos Japoneses da City University, em Nova York, é linguista por formação e acredita que, descobrindo palavras e expressões únicas em outras culturas, podemos obter uma compreensão mais ampla de nossas próprias vidas.

“No Ocidente, costumamos buscar a perfeição, e sentimos sempre que precisamos ser perfeitos, temos que fazer o máximo para atender às expectativas de outras pessoas. Pensando sobre como meus avós eram e sobre o estilo de vida japonês tradicional, pensei que poderíamos fazer uma pausa, olhar em volta e aceitar as coisas que normalmente não apreciamos, como envelhecer.”

'Mugon-no gyō': um exercício de meditação particularmente silencioso que pede que você reserve um momento para refletir antes de fazer algo - aja, não reaja (Foto: JAVIER HIRSCHFIELD via BBC)

 

A serenidade permeia muitas das expressões, seja derivada da necessidade de aceitar questões que estão além do nosso controle ou de tratar com respeito o próximo.

O artista sul-africano David Buchler – que escreveu breves ensaios para o livro – vive no Japão há sete anos.

“Quando converso com pessoas em japonês, presto muita atenção no que estou dizendo, nos meus gestos e em ser educado, penso nos efeitos das minhas palavras (no interlocutor)”, explicou ele à BBC Culture.

O livro cobre tópicos abrangentes, incluindo “harmonia”, “gratidão” e “tempo” – mas não é um dicionário abstrato. Em vez disso, Fujimoto abre as portas para uma cultura que muitas vezes pode parecer distante para quem é de fora.

Sobre shibui, que “remete à beleza revelada pela passagem do tempo”, ela escreve:

“Inserindo-se em uma estética de calma – cores suaves e brilho moderado -, esta palavra nos lembra de apreciar aquilo que melhora com a idade. Há um encanto na maturidade, e as experiências de vida marcam seus objetos com uma expressão agradável. Você pode observar o shibui na cor das folhas das árvores no início do inverno, ou em uma xícara de chá antiga em cima da mesa”.

'Fukinsei', ou beleza na assimetria: a simetria representa a perfeição e é estranha à experiência humana. Uma forma de arte deve trazer uma sensação de possibilidades alternativas, admitindo a mudança (Foto: JAVIER HIRSCHFIELD via BBC)

 

É uma filosofia que encontra um público receptivo: o programa da guru japonesa da arrumação Marie Kondo, por exemplo, é um sucesso no Netflix – ela ensina a desapegar de objetos que não despertam mais “alegria” em você. Um estilo de vida que levou ao aumento de doações a instituições de caridade no Reino Unido desde o lançamento do programa.

Ao mesmo tempo, o movimento mindfulness (atenção plena) do século 21 oferece aplicativos de meditação para praticar quando estamos a caminho do trabalho, preparando o jantar ou fazendo compras no supermercado.

'Teinei': uma atitude cortês, em que cada gesto é realizado com dedicação e precisão; se comportando com o maior cuidado para mostrar excelência em sua conduta (Foto: JAVIER HIRSCHFIELD via BBC)

“Aprender a língua me acalmou muito – a maneira como eu me aproximo das coisas é mais benéfica para mim”, diz Buchler.

Ele escolhe a expressão mono-no aware ou “a natureza efêmera da beleza”.

“É basicamente sobre estar consternado e apreciar a transitoriedade – e também sobre a relação entre a vida e a morte. No Japão, há quatro estações muito distintas e você realmente se torna consciente da vida, da mortalidade e da transitoriedade. Você se torna consciente de como esses momentos são significativos.”

'Mono-no aware': a natureza efêmera da beleza - o sentimento discretamente exultante e agridoce de ser testemunha do deslumbrante circo da vida, sabendo que nada disso pode durar (Foto: JAVIER HIRSCHFIELD via BBC)

O livro destaca o quanto o clima de um país afeta seu vocabulário.

“As condições de vida no Japão pré-moderno eram duras… as pessoas tiveram que aprender a conviver com isso – você não pode ficar sempre ressentido em relação ao que a natureza pode trazer. Em vez de ficarem chateados ou tentarem resistir, eles descobriram uma maneira sábia de apreciar e lidar com o que eles têm”, diz Fujimoto.

Traduzido literalmente como 'não existe meio ou método', shōganai é um lembrete de que às vezes temos que aceitar as coisas como elas são, nos permitindo deixar para trás sentimentos negativos (Foto: JAVIER HIRSCHFIELD via BBC)

“Eu me lembro de tufões destruindo as plantações e de um grande terremoto que tirou milhares de vidas no meu distrito”, escreve Fujimoto em sua introdução.

“É assim que os japoneses desenvolveram seu estilo de vida: vivendo em harmonia com a natureza, uma filosofia que se encontra no coração do xintoísmo, a antiga espiritualidade indígena do povo japonês… Esse sistema de crenças evolui para uma maneira unicamente japonesa de apreciar a beleza hoje.”

'Kodawari': atenção aos detalhes de forma determinada e escrupulosa, motivada por uma paixão sincera e autodisciplina; sabendo que alguns esforços não serão reconhecidos (Foto: JAVIER HIRSCHFIELD via BBC)

Fujimoto reconhece que existem certos “elementos essenciais de beleza, como simetria, composição, juventude e vivacidade” – mas argumenta:

“Nós costumamos ser atraídos por essas qualidades ‘positivas’, enquanto atributos opostos, como a feiura, a imperfeição, a idade e a morte são consideradas desagradáveis no mundo ocidental.”

“A estética tradicional japonesa é, inversamente, fundada na verdade inegável da natureza; tudo na natureza é transitório; nada dura e nada é perfeito. Há beleza em todos os variados aspectos da vida, do nascimento à morte, da imperfeição à perfeição, da feiura à elegância.”

Ao valorizar o que é misterioso e profundo, 'yūgen' é um tipo de beleza que deriva do eufemismo: profundamente ligada ao 'kanso', é um lembrete para enxergamos além das aparências (Foto: JAVIER HIRSCHFIELD via BBC)

 

O livro ressalta o benefício que a compreensão de determinadas palavras em idiomas diferentes pode trazer: podemos ver o mundo de duas maneiras diferentes, mantendo ambos os pontos de vista simultaneamente.

“Se você simplesmente mudar a sintonia, poderá ver mais beleza no mundo”, diz Fujimoto.

“Apenas uma pequena mudança de mentalidade ou perspectiva: estamos rodeados de tantas coisas boas que não percebemos ou apreciamos.”

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